Delegada e quatro investigadores vão ser julgados por susposta extorsão a traficantes
28/11/15 | Wilson Gonçalves Júnior – wilson.junior@jcruzeiro.com.br Ricci Anzuino – FÁBIO ROGÉRIO / ARQUIVO JCS (17/7/2015)
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/Sorocaba) pediu à Justiça que a delegada Simona Ricci Anzuino e os investigadores João Paulo Heitaro Abe, Giuliano Roberto Marcon, Ramon Bachiega Angelini e Ricardo Shulze sejam condenados a prisão pelos crimes de extorsão, associação criminosa e falsidade ideológica. Segundo a acusação, a delegada e os investigadores, que em 2007 atuavam na Delegacia de Investigações Sobre Entorpecente (Dise) de Sorocaba, teriam recebido propina de R$ 34 mil e mais um veículo Audi em troca da liberdade de duas das três pessoas que foram levadas à delegacia, após um flagrante de tráfico de drogas. Conforme a denúncia, apresentada pelo MP e acatada pela Justiça, os dois traficantes ficaram detidos na delegacia até que o pagamento fosse feito, e o boletim de ocorrência não trouxe nenhuma informação de que essas pessoas tivessem estado no prédio da Dise durante a elaboração do flagrante. As defesas da delegada Simona (que atualmente é delegada em Mairinque) e dos investigadores negam as condutas atribuídas a seus clientes, alegam que o Gaeco não tem provas para sustentar a acusação e procuram desqualificar as testemunhas, por serem criminosos.
O caso começou em 2007, com uma interceptação telefônica, autorizada pela Justiça, a pedido do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MP-MG), na investigação de um traficante na cidade de Alfenas. No áudio, uma pessoa dizia que estava sendo extorquida por policiais numa Delegacia de Investigações Sobre Entorpecente (Dise). Não se sabia, na época, em qual das cidades do Estado de São Paulo o crime estaria sendo praticado. Entretanto, o assunto, a pedido da Justiça de Minas Gerais, foi encaminhado ao MP-SP e à Corregedoria da Polícia Civil do Estado de São Paulo. Somente em abril de 2009, o caso começou a ganhar contornos, já que o delegado de polícia da corregedoria, Mário Rui Aidar Franco, conseguiu identificar que uma loja de pneus citada na gravação existia em Indaiatuba. O delegado conseguiu, com autorização judicial, quebrar o sigilo telefônico e chegou até o proprietário do Audi, que era uma das pessoas que teriam sido extorquidas pelos policiais.
Num primeiro momento, a pessoa, que não pode ser identificada por fazer parte do programa de proteção a testemunha, disse que teve seu veículo Audi apreendido por policiais, sem entrar muito em detalhes dos motivos. Entretanto, já num segundo depoimento, dado ao delegado Aidar, a testemunha protegida — identificada como “número 1” — contou os detalhes da extorsão. Ele informou que no primeiro depoimento foi orientado pelo advogado Hélio Ercínio dos Santos Júnior a não incriminar os policiais. A testemunha 1 reconheceu o prédio da Dise de Sorocaba e disse que esteve na delegacia dias depois do ocorrido, justamente para entregar o documento do carro, conforme teria sido acertado na extorsão. Na ocasião, teria visto a delegada Simona Ricci Anzuino chegar com o Audi para trabalhar. A prisão do trio, que teria sido extorquido, ocorreu no estacionamento de um shopping existente na rodovia Raposo Tavares. Com essas informações, feitas em conjunto com a Corregedoria da Polícia Civil e Delegacia de Crimes Funcionais de São Paulo, o Gaeco apresentou a denúncia à 2ª Vara Criminal de Sorocaba, em dezembro de 2010.