Desempregado que quer comprar trabalho deveria procurar a prefeita e os vereadores de Cubatão; lá cargos de confiança e terceirizados custam apenas meio-a-meio 20

Desempregado e com dívida, morador de Cubatão oferece R$ 1.000 por trabalho

Rafael Motta
Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

03/10/201514h23

Geralmente, empresas procuram trabalhadores e oferecem salário a eles. Mas a proposta de Edson Almeida, 27, é outra: ele se prontifica a pagar R$ 1.000 para quem lhe conseguir emprego como mecânico montador ou em “qualquer função profissional” diferente.

Morador de Cubatão (a 56 km de São Paulo), ele está desempregado há um mês e com “dívidas se acumulando”.

A oferta está estampada em alguns dos 36 cartazes –parte deles foi arrancada– que imprimiu e colou em hotéis, bares, portas de agências bancárias e em uma parede da prefeitura da cidade.

Inicialmente constrangido, Edson não divulgou o nome verdadeiro nos cartazes, e optou por um pseudônimo: Murillo. Após a repercussão, no entanto, admitiu de maneira aberta que está disposto a pagar para ter emprego.

Houve retorno: após indicação de um amigo, recebeu um telefonema de Manaus (AM). “Vou para qualquer lugar, mas não senti firmeza [na vaga]”, lamentou Almeida.

Visto negado para intercâmbio nos EUA

A ideia de espalhar os cartazes surgiu depois de uma tentativa fracassada de estudar no exterior. Ele afirma ter tentado autorização para estudar inglês nos Estados Unidos, por sugestão de um professor, mas lhe negaram o visto de entrada.

“Isso foi na terça-feira [29]. Estudando inglês lá e fazendo cursos na área portuária, eu teria um currículo mais atraente”, afirma.

Sem receber desde janeiro

Apesar de ter ficado desempregado em setembro, Almeida diz estar sem receber desde janeiro. Segundo ele, ficou impedido de trabalhar após ter tido contato com um gás tóxico no polo industrial de Cubatão. Porém, afirma, não obteve licença médica pelo INSS porque a empresa não lhe forneceu a documentação necessária.

“Fiquei de janeiro a 13 de agosto sem receber. Não pedi afastamento pelo INSS porque a empresa não aceitava me dar a CAT [Comunicação de Acidente de Trabalho] e, depois, não me aceitava de volta. Consegui com ajuda do sindicato [de sua categoria], mas me mandaram embora em 1º de setembro”, relata.

Pagar R$ 1.000 a quem lhe assegure emprego foi uma ideia para driblar a dificuldade de não ter alguém que o indique para uma colocação.

“Não tenho o dinheiro. Posso pagar quando receber o salário ou um vale. Mesmo assim, pessoas próximas se dispuseram a me emprestar essa quantia”, afirma.

Seu irmão, igualmente mecânico montador, está parado há 11 meses.

Sonho para o futuro é mudar de área

Almeida é formado em Logística Empresarial desde 2011 e pós-graduando em supply chain management (gerenciamento de cadeia de suprimentos). Mineiro, mora em Cubatão há nove anos com uma irmã, também desempregada, e a filha dela, de 3 anos, “que não recebe pensão”.

Ele espera trabalho para resolver suas pendências financeiras e, futuramente, quer começar a atuar na área em que se formou.

Infelizmente, ainda não tem experiência na área. “Não deu. Precisava de indicações e bom conhecimento [de pessoas] para entrar na área [de logística]”.

O que tem o cu a ver com as calças? – Mortes por policiais no país em um ano equivalem a um 11 de Setembro 33

Mortes por policiais no país em um ano equivalem a um 11 de Setembro

ROGÉRIO PAGNAN
DE SÃO PAULO

03/10/2015 02h00

Policiais civis e militares mataram no ano passado ao menos 3.022 pessoas no país, uma média de oito por dia e um total que supera o de vítimas dos atentados de 11 de setembro nos EUA em 2001, em que 2.977 pessoas morreram.

Os dados fazem parte da 9ª edição do Anuário de Segurança Pública que será lançado semana que vem pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG que reúne especialistas em violência urbana.

Essas mortes por policiais em 2014 representam crescimento de 37% em relação a 2013, puxado principalmente pelo avanço da letalidade em SP (57,2%) e Rio (40,4%).

A sensação em 2015 é que esse tipo de crime segue em alta nesses dois Estados.

Em São Paulo, por exemplo, PMs são os principais suspeitos de comandar a chacina de 19 pessoas em Osasco e Barueri, em agosto.

Em outro caso recente em SP, PMs foram presos após o assassinato de dois suspeitos já rendidos na capital –um deles atirado de um telhado.

Esse crime foi registrado em vídeo, assim como no caso desta semana no Rio no qual policiais tentaram forjar um tiroteio diante do corpo de um jovem morto.

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do fórum, esses casos são exemplos de uma política de combate à violência equivocada. “É mais uma evidência, de tantas outras, de que o sistema de polícia no país precisa mudar. Há uma falência do modelo de polícia, de enfrentamento.”

Outra evidência do fracasso é o alto índice de policiais também assassinados no país –foram 398 no ano passado. Esse ranking é puxado por Rio (98), SP (91) e AM (30).

“Eles também são caçados. Você acabou criando a dinâmica da “vendetta” [vingança]. Quem mata e quem morre primeiro. O Estado tem que ser mais eficiente em interromper essa guerra”, disse o vice-presidente do fórum.

Embora tenham 29% da população, as polícias paulista e fluminense foram responsáveis por 51,3% de todas as mortes praticadas por policiais em 2014 –o que inclui dados de PMs e policiais civis de, de folga e em serviço.

Mas o fórum faz uma ressalva. SP e RJ podem representar fatia menor no cenário nacional, porque outros Estados resistem a dar informações. Assim, as 3.022 mortes são dados subestimados.

Para o coronel Álvaro Camilo, ex-comandante da PM de SP e hoje deputado estadual pelo PSD, um dos motivos do crescimento da letalidade é a ação dos próprios criminosos.

“A impunidade fez com que o infrator passasse a ficar mais agressivo. Ele está enfrentando mais a polícia.”

folha

AÇÕES CONTRA LETALIDADE

As secretarias de Segurança de São Paulo e do Rio dizem que estão adotando medidas para tentar reduzir a letalidade policial.

No caso do governo Geraldo Alckmin (PSDB), a pasta afirma apostar em uma resolução deste ano que passou a exigir, além da perícia, equipes das Corregedorias e comandantes na região de mortes com confrontos “para melhor preservação do local dos fatos e eficiência inicial das investigações”.

No caso do governo fluminense, de Luiz Fernando Pezão (PMDB), a secretaria cita a redução do número de fuzis no policiamento –arma de maior letalidade e que em SP só é usada em unidades especiais, e não no patrulhamento comum.

A secretaria paulista afirma ainda prever a imediata comunicação ao Ministério Público dos casos envolvendo policiais e que a letalidade da PM caiu 11,2% entre abril e julho, em relação ao mesmo período de 2014. De janeiro a junho, porém, houve crescimento recorde.

“Vale ressaltar que São Paulo está entre os Estados mais transparentes na divulgação de índices criminais, sendo um dos poucos que contabiliza, entre outros quesitos, as mortes provocadas por policiais em folga”, diz trecho da nota.

Já a secretaria do Rio ressalta ainda a criação de Centro de Formação do Uso Progressivo da Força para a redução dos índices criminais.

Apesar do aumento da letalidade em 2014, ela ressalta que esse número está 45% abaixo do patamar de 2006.

Segundo a pasta, a partir de 2008, ano da primeira Unidade de Polícia Pacificadora, os homicídios por intervenção policial apresentam queda (nas áreas de UPP, de 85%) e “estudos apontam que a pacificação” contribuiu para reduzir as mortes em confronto.

Luiz Gomes/Folhapress
PM morre e outro fica ferido durante tentativa de assalto na av. Marechal Fontenele, em Sulacap, na zona oeste do Rio de Janeiro
PM morre e outro fica ferido durante tentativa de assalto na av. Marechal Fontenele, em Sulacap, na zona oeste do Rio de Janeiro

SEM ENFRENTAMENTO

Na outra ponta da gangorra, o Distrito Federal, com os menores indicadores de letalidade policial, é apontado como exemplar pelo Fórum Brasileiro de Segurança.

Lá, segundo o secretário da Segurança Pública e da Paz Social, Arthur Trindade, há nas próprias instituições uma cultura de não-violência. “A pergunta que todos me fazem é se é isso mesmo: taxa média de três civis mortos por ano em confrontos. Aqui não há uma lógica do emprego do policiamento para confronto, essa cultura do enfrentamento. O policiamento é feito seguindo outras estratégias.”

Além disso, as corregedorias trabalham de forma dura e todas as mortes por policiais são registradas como homicídio, não como resistência seguida de morte.

POLICIAIS MORTOS NO RIO

Assim como figuram entre os que mais matam, policiais do Rio também estão entre as principais vítimas –como ocorreu nesta sexta (2) com um sargento e um cabo da PM, alvos de tentativa de assalto em Sulacap (zona oeste).

Marcelo de Moraes (sargento) e Antônio Carlos Dias Leite (cabo) seguiam de moto para um treinamento. Sem farda, foram abordados por dois homens em outra moto.

Eles reagiram e, no tiroteio, Moraes foi assassinado com um tiro na cabeça e outro no abdômen. O cabo acabou baleado no abdômen, mas pediu ajuda a um funcionário dos Correios –que matou um dos ladrões com a arma do policial. O outro fugiu.

Esse funcionário levou Leite ao hospital em sua própria moto. “Ele viu o policial atingido, pegou a arma do policial e atirou contra o meliante. Foi um ato de heroísmo”, disse o delegado Rivaldo Barbosa.

A morte de Moraes é a quarta de um PM nesta semana no Rio. Na segunda (28), um soldado foi morto na Baixada Fluminense após ser reconhecido como policial. Também na Baixada e pelo mesmo motivo, outro soldado morreu na quinta (1º). Um PM que foi dublador de Harry Potter morreu em tiroteio no Complexo do Alemão.

Colaborou BRUNA FANTTI, do Rio

Transcrito da Folha de São Paulo ; nos termos do artigo 46 da Lei nº 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998.‏

Policial civil executado em Santos 29

Policial civil é morto com tiro na cabeça em padaria do Campo Grande

Ele foi surpreendido por três suspeitos e baleado na cabeça

DE A TRIBUNA ON-LINE

Um policial civil foi morto com um tiro na cabeça em uma padaria, na esquina das ruas Carlos Gomes e José Clemente Pereira, no Campo Grande, em Santos, na noite desta sexta-feira (2). Claudio Roberto Fleury era carcereiro e trabalhava no 5º Distrito Policial (DP) de Santos.

Conforme apurado por A Tribuna, três homens, ainda não identificados, pararam um carro próximo à padaria e foram a pé até o estabelecimento, onde se aproximaram pelas costas do policial civil e o balearam na cabeça.

O crime tem características de execução. Nada foi roubado da vítima.

Depois de ser baleado, o policial civil chegou a ser socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado para a Santa Casa de Santos, mas morreu enquanto recebia os primeiros socorros no Plantão de Pronto Atendimento (PPA).

Crime aconteceu em frente a padaria na Rua Carlos Gomes, no Campo Grande, em Santos

* Com informações de Eduardo Velozo Fuccia

Tucano – condenado por improbidade – que atacava delegado foi assassinado 29

Prefeito de Elias Fausto pode ter sido vítima de ‘emboscada’, afirma SSP

Secretário de Segurança Pública diz que essa é principal suspeita do crime.
Caso será investigado pela DIG de Piracicaba; Laércio Betarelli levou 5 tiros.

Do G1 Piracicaba e Região

Prefeito de Elias Fausto morreu baleado nesta sexta-feira (Foto: Reprodução)Prefeito de Elias Fausto, Laércio Betarelli, morreu
baleado (Foto: Reprodução/Propaganda eleitoral)

O prefeito de Elias Fausto (SP), Laércio Betarelli (PSDB), morto a tiros na manhã desta sexta-feira (2) ao visitar uma obra na cidade, pode ter sido vítima de uma emboscada, segundo a Secretária de Segurança Pública (SSP).

O titular da pasta, Alexandre de Moraes, afirmou em Piracicaba (SP), para onde o corpo do político foi levado, que “a cena do crime e o modo como foi realizado indicam para uma execução, uma emboscada de algum desafeto”.

Betarelli tinha 58 anos e foi assassinado por volta das 9h na Rua Amadeu Patelli, no bairro Carimã. O corpo foi retirado do local e levado para o Instituto Médico Legal (IML) de Piracicaba.

“Assim que nós soubemos do homicídio, determinamos que fosse providenciado todo o apoio da (Delegacia) Seccional e do Deinter (Departamento de Polícia Judiciária). O IML também providenciou a necropsia para acelerar a investigação. O prefeito foi morto com seis tiros”, afirmou.

Alexandre de Moraes, secretário de Segurança Pública de São Paulo (Foto: Claudia Assencio/G1)Alexandre de Moraes, da SSP, fala sobre morte
de Laércio Betarelli (Foto: Claudia Assencio/G1)

Emboscada
Ainda segundo o secretário, uma das testemunhas disse que viu que uma pessoa aguardava em cima de uma árvore, pulou no chão e disparou. “Tudo indica que o assassino estava esperando o prefeito para executá-lo, porque era hábito dele visitar obras nesse horário”.

A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) vai comandar a apuração do caso. “Solicitamos imagens do perímetro, vamos analisar os projéteis que foram recolhidos. Eram de calibre 38. Preservamos o máximo de provas para identificar o assassino ou os assassinos”, afirmou Moraes.

De acordo com a Guarda Municipal, Betarelli estava no bairro Carimã para visitar uma obra de canalização de um córrego. A corporação informou ainda que maior parte do efetivo estava fora da cidade, em um curso na cidade de Capivari (SP).

Moradores cercaram corpo do prefeito de Elias Fausto, Laércio Betarelli (Foto: Reprodução/ EPTV)Moradores cercaram corpo do prefeito de Elias Fausto, Laércio Betarelli (Foto: Reprodução/ EPTV)

Embate com delegado
Na terça-feira (22), durante um evento em Piracicaba (SP), o prefeito de Elias Fausto pediu publicamente a retirada do delegado da Polícia Civil do município, Gillis Scrocca, durante uma visita do secretário de Segurança Pública à região. “Ele é omisso, inoperante e ausente”, disse Betarelli durante a reunião (veja o vídeo abaixo).

O titular da delegacia alegou na ocasião que as declarações do prefeito não passavam de manobra política. “Ele não quer que eu permaneça no cargo até as próximas eleições. Faz nove anos que estou lá e já cumpri mandados de prisão contra funcionários da alta cúpula da gestão dele”, disse Scrocca na ocasião.

Segundo a Câmara de Vereadores, o prefeito participou, na quinta-feira (1), de uma reunião com parlamentares e o secretário de Segurança Pública em São Paulo para discutir uma possível troca do titular da Polícia Civil da cidade.

Nesta sexta-feira, o delegado do município esteve no local onde Betarelli foi assassinado e afirmou que, apesar dos problemas de relacionamento e conflitos que teve durante a gestão do chefe do Executivo, isso não vai interferir na investigação para descobrir o autor do crime.

O secretário de Segurança Pública do estado disse não haver suspeitas contra Scrocca. “Não acreditamos em envolvimento do delegado. O prefeito e o delegado da cidade são desafetos políticos desde 2007. O prefeito inclusive colocou isso pra mim durante a reunião, mas em nenhum momento ele disse que foi ameaçado”, afirmou.

Processo
Outra polêmica recente na carreira política de Betarelli é um processo que ele respondia por improbidade administrativa. No final de 2014, a 5ª Câmara de Direito Público do estado de São Paulo negou recurso à defesa do prefeito. A ação já não aceitava mais recursos na instância estadual, e só poderia ser questionada em Brasília.

Em 2013, o chefe ele havia sido condenado em primeira instância na ação, que prevê pagamento de multa, ressarcimento de valores aos cofres municipais e perda de função pública. No entanto, Betarelli recorreu com embargos de declaração para tentar reverter a decisão, o que foi negado pela Justiça.

O processo teve início em 2008. Betarelli era o prefeito e o Ministério Público apresentou, tanto à Justiça Eleitoral como à comum, denúncia de que a Prefeitura teria pagado por propaganda irregular em prol de candidatura à reeleição do chefe do Executivo.

A defesa do prefeito de Elias Fausto no processo informou que já tinha recorreu da sentença e que confia na absolvição. Segundo o advogado, Betarelli já havia sido absolvido das mesmas acusações na Justiça Eleitoral e as ações apontadas pelo Ministério Público não configuram improbidade administrativa.

Luto
O vice-prefeito Joaquim Antonio de Campos Bicudo decretou, nesta tarde, luto oficial na cidade durante sete dias. As atividades e atendimentos em serviços municipais foram suspensos nesta sexta e permanecerão parados também durante toda a próxima segunda-feira (5). A retomada ocorrerá na terça-feira (6), mas ainda sob o luto oficial, segundo a Prefeitura.

 Vida
Laércio Betarelli, conhecido como Dude, nasceu no dia 13 de fevereiro de 1957, em Monte Mor (SP). Em 2012, o tucano foi eleito para seu terceiro mandato com 67% dos votos. Ele deixa a esposa Marina Arakaki e dois filhos. Na infância, estudou durante o ensino médio e fundamental em duas escolas de Elias Fausto.

Laércio fez colégio técnico em bioquímica em Campinas (SP) e se formou em Engenharia Civil na Pontfícia Universidade Católica de Campinas (Puc-Campinas) . Ele também foi professor de estatística e física em dois colégios da cidade.

De 1982 a 1992 e de 2001 a 2004 ele trabalhou como responsável pelo departamento de Obras da Prefeitura de Elias Fausto. Dude já foi vereador de 1989 a 1992 e presidente da Casa em 1991 e 1992.

O tucano já foi eleito prefeito de Elias Fausto em outros dois mandatos, entre 1997 e 2000, e de 2005 a 2008. Dude também atuou como chefe de gabinete da Prefeitura de Monte Mor (SP) de janeiro de 2009 a março de 2012, quando se candidatou novamente à chefia do Executivo e foi eleito com 6,7 mil votos.

Polícia Civil instaura inquérito contra PMs que intimidaram professores e alunos de Escola Estadual de Sorocaba 56

ATENTADO A DIREITOS HUMANOS

Inquérito apura conduta da PM após trabalho escolar sobre violência

OAB denunciou possível abuso de autoridade por parte de policiais.
Cartaz exposto em escola de Sorocaba questionava violência policial.

Jomar BelliniDo G1 Sorocaba e Jundiaí

Trabalho causou polêmica ao questionar trabalho da PM (Foto: Reprodução/ Facebook)Trabalho causou polêmica ao questionar trabalho
da PM (Foto: Reprodução/ Facebook)

A Polícia Civil abriu nesta semana um inquérito para apurar um suposto abuso de autoridade de policiais militares em uma polêmica envolvendo estudantes e um professor da Escola Estadual Professor Aggêo Pereira do Amaral, emSorocaba (SP).

A polêmica começou depois que a foto de um cartaz exposto na escola foi publicada nas redes sociais. O banner fazia parte de um trabalho escolar de filosofia que classificava a PM como um “grande problema na atualidade”. Ao saber sobre o trabalho, a PM emitiu uma nota de repúdio em que criticou a atitude do professor, Valdir Volpato, e da escola. Estudantes afirmam que a presença de policiais passou a ser constante do lado de fora da escola, como forma de intimidação.

De acordo com o delegado Alexandre Cassola, responsável pelas investigações, o inquérito foi instaurado após pedido da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Sorocaba. “Vamos apurar se houve injúria qualificada contra o professor, no sentido de ser um servidor público e a injúria possivelmente ser realizada no exercício de função”, explica.

O G1 procurou a Polícia Militar para falar sobre a abertura do inquérito, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.

Denúncia
Para o advogado da comissão da OAB, Hugo Batalha, a injúria foi registrada na nota de repúdio emitida pela PM e que foi replicada em redes sociais com críticas nominais ao professor Valdir Volpato, responsável pelo projeto. O texto da PM classificou a postura do docente como “infeliz” ao cometer um “erro lastimável”. “A nota oficial ofende expressamente o professor e não pode ser considerada nenhuma questão de interpretação”, afirma o advogado.

O representante da OAB também denunciou o relato feito por estudantes e professores sobre uma presença constante de policiais militares na escola sem motivo aparente após a divulgação do trabalho. “Percebemos que a gravidade das ações da PM dentro da escola na tentativa de censurar o conteúdo da grade curricular. Isso teve um nítido caráter intimidatório porque não é atribuição da PM fazer patrulhamento de conteúdo escolar.”

Ainda segundo Batalha, um documento semelhante ao entregue na Delegacia Seccional de Sorocaba também foi enviado para a corregedoria da Polícia Militar.

De acordo com Cassola, três representantes da escola já foram ouvidos nesta semana. Entre eles está o professor responsável pelo trabalho. “Ele sinalizou que se sentiu censurado pelos policiais no momento em que passaram a querer determinar como deveria ser o trabalho pedagógico e injuriado quando o nome dele foi divulgado no Facebook como ‘infeliz’”, explica o delegado.

O delegado deve oficiar o comando da PM para inicialmente saber quem foram os policiais que estiveram presentes na escola. As investigações vão se estender por 30 dias, prazo que pode ser prorrogado. Como se trata de um crime de menor potencial ofensivo, possíveis indiciados poderão responder criminalmente em liberdade e, dependendo da interpretação da PM, no âmbito administrativo militar.

Repúdio
A PM foi questionada na manhã de quarta-feira (30) sobre a abertura do inquérito por parte da Delegacia Seccional de Sorocaba, mas não respondeu à solicitação do G1 até a publicação desta reportagem. A polícia também não comentou a possível abertura de um processo administrativo na corregedoria para apurar as denúncias da OAB.

No dia 17 de setembro, a corporação emitiu uma nota de repúdio que foi publicada na internet e foi replicada nas redes sociais. “Não queremos acreditar que, em pleno século XXI, profissionais da área de ensino posicionem-se de maneira discriminatória, propagando e incutindo o discurso de ódio em desfavor de profissionais da segurança, estimulando seus alunos a agirem sem embasamento e direcionando-os de acordo com ideologias anacrônicas, que em nada contribuem para a melhoria da sociedade”, dizia a nota.

Estudantes realizaram protesto a favor de projeto sobre violência policial (Foto: Jomar Bellini/G1)Estudantes realizaram protesto a favor de projeto
sobre violência policial (Foto: Jomar Bellini/G1)

Classificando a charge como “infeliz”, a Polícia Militar afirmou que “sempre foi e será grande defensora dos direitos humanos e dos deveres morais, éticos e legais da sociedade”. A nota da PM ainda criticou a forma como o trabalho foi feito, com base em “matérias jornalísticas e material de criação confeccionados por pessoas parciais” e “longe de ser uma metodologia aceitável”. A corporação encerrou a nota afirmando que repudiava “a postura do infeliz professor, caso efetivamente tenha ocorrido esse erro lastimável”.

Cartaz polêmico
O trabalho, entitulado “Violência Policial”, questiona a ação da Polícia Militar no Estado de São Paulo e foi produzido por alunos do ensino médio. O cartaz explica as etapas do projeto e diz, na conclusão, que os policiais “acabam sendo considerados um grande problema na atualidade usando a força para obter melhores resultados”.

De acordo com o projeto, o objetivo seria levantar “uma reflexão do quanto a polícia viola os deveres morais, éticos e legais com ações que contrariam as leis”. A reportagem do G1 entrou em contato com o professor Valdir Volpato na época em que surgiu a polêmcia, mas ele afirmou que não se pronunciaria sobre o caso.

O trabalho especifica as discussões realizadas em torno do tema, levantando a “questão da violência policial contra a população” alegando que a PM “usa a vingança para obter resultados”. Ainda segundo o cartaz, o trabalho foi produzido utilizando como base reportagens publicadas em jornais e em pesquisas na internet.

A peça de divulgação do trabalho traz também uma imagem do chargista Lattuf publicada em 2013, quando a Câmara Municipal de São Paulo votou um projeto de lei concedendo a homenagem “Salva de Prata” às Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). A imagem mostra um policial com uma cabeça de caveira segurando um caixa com um homem morto e os dizeres “pelos relevantes serviços prestados”.

A publicação do banner nas redes sociais gerou críticas aos alunos que participaram do projeto e ao professor. Após a nota de repúdio da PM, estudantes chegaram a fazer um protesto em defesa da escola.

Regina Viana, diretora da escola, defendeu o projeto durante protesto (Foto: Jomar Bellini/G1)Regina Viana, diretora da escola, defendeu o
projeto durante protesto (Foto: Jomar Bellini/G1)

O Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) e a OAB também realizaram um ato em repúdio à suposta intervenção da PM na escola estadual. O evento aconteceu no dia 28, no Núcleo de Educação, Tecnologia e Cultura, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e contou com a presença do professor Valdir Volpato, responsável pelo trabalho, e do chargista Carlos Latuff, que chegou inclusive a publicar uma nova charge após a polêmica.

Outros cartazes
O trabalho foi realizado após um ciclo de palestras das disciplinas de História, Filosofia e Sociologia onde os estudantes trabalham, desde o começo do semestre, o livro “Vigiar e Punir”, do filósofo francês Michel Foucault.

Em entrevista ao G1 em 17 de setembro, dia em que os estudantes fizeram o protesto, a diretora da escola defendeu o projeto e afirmou que a ideia era promover uma reflexão sobre a sociedade.“Não faltou orientação. Está dentro da obra do Foucault e não foi tirado isoladamente. O fato de a foto do cartaz ser pinçado isoladamente, fora do contexto, é que deu este problema. Teria que ler desde o primeiro porque são mais de 20 banners. Pegaram justamente sobre a violência policial, mas não quer dizer que a polícia é violenta”, disse.

Viana comentou também sobre o conteúdo do cartaz. “O cartaz foi produzido com base em pesquisas na internet e não busca denegrir a imagem da polícia.” Em outros cartazes relacionados ao ciclo de palestras e que estão expostos no saguão de entrada da escola são abordados temas como o sistema carcerário em geral e a facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios de São Paulo.

A diretora disse que, diferentemente do que os estudantes afirmam, a escola não recebeu nenhum tipo de represália da Polícia Militar, apenas críticas de publicações em redes sociais.

Charge faz crítica à possível intervenção da PM em escola de Sorocaba (Foto: Divulgação / Lattuf)Charge faz crítica à possível intervenção da PM em escola de Sorocaba (Foto: Divulgação / Lattuf)

Falta de policiais civis pode colocar Operação Verão em xeque, prevê presidente do Sinpolsan 41

Márcio Pino diz que já alertou vários conselhos de segurança da Região, mas Estado não atendeu reivindicações

por Carlos Ratton – Diário do Litoral 

A Secretaria da Segurança Pública nega, mas segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado de São Paulo na Região de Santos (Sinpolsan), Márcio Pino, o efetivo da Polícia Civil da Região Metropolitana da Baixada Santista caiu, em média, 50% nos últimos cinco anos. Diante do que prevê como um grande problema principalmente durante o período da temporada de Verão, Márcio Pino, alerta para um verdadeiro caos nas delegacias, “caso o Governo do Estado não mude essa realidade”.

Segundo Pino, não adianta o Governo enviar reforço somente para Polícia Militar, pois trabalhos ostensivos e preventivos sem a investigação, não fazem efeito. “A capacidade da Polícia de esclarecer crimes só acontece em função do esforço pessoal de alguns policiais que estão perdendo o convívio familiar e utilizando recursos próprios para investigar”, garante o sindicalista.

“É a velha história do cobertor curto. O aumento da criminalidade está diretamente relacionado à impunidade que, por sua vez, se dá pela falta de estrutura e do efetivo da Polícia Civil. A falta de funcionários já chegou a Santos, considerada a principal cidade da região. Os escrivães, como diz o jargão da polícia, estão tocando o serviço como podem”, afirma Pino, alertando que, em Praia Grande, as pessoas evitam registrar ocorrências porque a média de espera é de duas horas.

Márcio Pino é presidente do sindicato alerta para sérios problemas por deficit de policiais (Foto: Luiz Torres/DL)

Márcio Pino é presidente do sindicato alerta para sérios problemas por deficit de policiais (Foto: Luiz Torres/DL)

O representante afirma que chegam a 300 procedimentos por mês fora da temporada. No entanto, o policial revela o exemplo do que ocorre no 1º Distrito Policial de Santos que, em 2009, tinha 48 policiais. “Hoje tem 24. Eram oito delegados e só tem três. Eram 14 escrivães e tem cinco. Eram 20 investigadores e hoje tem 10. E não funciona aos sábados e domingos”, afirma o presidente.

Segundo Pino, outro exemplo é o 4º Distrito, que de cinco escrivães passou a ter três, sendo que um está próximo da aposentadoria e o outro “sou eu, que vou me afastar para exercer as atividades sindicais. Portanto, ficará restrito a dois. Tinha 23 investigadores e agora deve também ter somente 10. Isso ocorre em quase todos os distritos da região, mas principalmente em Praia Grande, Guarujá e São Vicente”, revela o sindicalista.

Márcio Pino conta que a precariedade operacional de Santos se igualou às demais cidades do entorno. “Santos está muito ruim. O policial civil terá que optar: atender o público ou dar andamento às investigações para desvendar o crime. A população, que paga impostos, não tem culpa da falta de planejamento do Estado. Tem o direito de exigir o trabalho bem feito”, afirma Pino.

O sindicalista explica que um concurso foi feito em 2013, mas os alunos ainda não foram chamados. O Estado deveria ter 32 mil policiais civis. No entanto, só tem 18 mil. “Faltam 14 mil. O Governo está há dois anos alertando que vai efetivar mais três mil, mas não o faz. O pior é que contingente não supre a cidade de São Paulo. Três mil policiais é mais ou menos 20% do que deveríamos ter em todo o Estado”, afirma.

Márcio Pino diz que já alertou vários conselhos de Segurança (Consegs) da Região, mas o Estado não responde às reivindicações. “Na temporada, vem cerca de 500 policiais militares para a região e não chega a 10% (50) o número de civis. As delegacias não estão e nem estarão estruturadas para a demanda. Voltando ao exemplo de Praia Grande, que chega a 1,5 milhão de pessoas, não tem jeito: as pessoas não vão prestar queixa e, consequentemente, os índices não corresponderão à realidade”, revelou.

Secretaria nega redução brusca

Ao contrário das afirmações do presidente do Sinpolsan, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que o efetivo da Polícia Civil é de 28,5 mil policiais e nega que o efetivo da corporação na região da Baixada tenha sido reduzido em 50% nos últimos cinco anos.

Nos últimos dois anos, segundo a SSP, foram enviados para a região 191 novos policiais. Foram 41 policiais civis (dois agentes de telecomunicações, 14 agentes policiais, quatro papiloscopistas, cinco auxiliares de papiloscopista, 11 investigadores e cinco escrivães), em 2014, e 16, ou seja, quatro delegados e 12 agentes de telecomunicações, em 2013.

A Secretaria afirma ainda que está em andamento concursos com 7.537 vagas para ingresso nas carreiras policiais, que serão distribuídos para todo o Estado após o processo de formação policial. Os concursos são para Polícia Militar (quatro mil soldados e 240 alunos-oficiais); Polícia Civil (129 delegados, 788 escrivães e 1.384 investigadores); Polícia Técnico-científica (89 atendentes de necrotério, 447 peritos, 140 médicos legistas, 120 fotógrafos técnico-periciais, 55 desenhistas técnico-periciais e 145 auxiliares de necropsia).

Além disso, está em formação, segundo a SSP, 110 escrivães, 189 agentes policiais, um investigador, um papiloscopista para a Polícia Civil; e um perito e um médico legista para a Polícia Técnico Científica.

Sindicato prevê horas de lentidão em atendimento (Foto: Luiz Torres/DL)

Sindicato prevê horas de lentidão em atendimento (Foto: Luiz Torres/DL)

Alckmin assina adicional

Contrariando as tentativas da SSP em negar a redução no efetivo da polícia civil, o governador Geraldo Alckmin, assinou, na última segunda-feira, projeto de lei para a criação da Diária Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Civil (Dejec). A medida autoriza os policiais civis trabalharem voluntariamente nas folgas, com direito a uma remuneração adicional.

A explicação para tal medida é a de que a escala remunerada de trabalho aumentará a renda dos policiais civis, a exemplo do que já acontece com os militares, e reforçará o efetivo nas ruas, nas delegacias, no trabalho de investigação e atendimento à população.

Cada policial poderá trabalhar até 8 horas diárias (fora da jornada normal), por até 10 dias no mês, ou seja, máximo de 80 horas, para que o serviço extraordinário não prejudique o descanso do policial civil.

O valor pago aos delegados está estimado em R$ 204, 00 por dia, contemplando oito horas de trabalho. As demais carreiras receberão R$ 170,00 por dia. O valor é calculado com base na Unidade Fiscal do Estado de São Paulo (Ufesp).

Sobre a medida, o presidente Márcio Pino se mostrou indignado. Segundo afirma, a diferença oferecida aos policiais do que é pago a uma diarista na capital paulista é R$ 2,82/dia. Para os delegados, a diferença é R$ 36,82 por dia. “Nada contra o trabalho das diaristas, que são dignos e importantes, mas os riscos dos policiais são, sem dúvidas, bem superiores”, disparou.

INOPERÂNCIA DA PM E DA JUSTIÇA MILITAR – Sociedade civil e parentes de vítimas querem federalização das chacinas praticadas por PMs 13

DIREITOS HUMANOS

Sociedade civil e parentes de vítimas pedem que PF investigue chacinas

Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil

A demora na investigação e, muitas vezes, a falta de punição dos responsáveis pelas chacinas preocupa os parentes das vítimas e os movimentos sociais e de direitos humanos. Para eles, uma possível solução seria convocar a Polícia Federal para auxiliar nas investigações desse tipo de crime no estado de São Paulo.

Na semana passada, movimentos sociais se reuniram na sede do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), no centro da capital paulista, para discutir uma forma de pressionar o governo de São Paulo na responsabilização das chacinas ocorridas no estado. O pedido de ajuda à PF para resolução desses crimes foi uma das medidas propostas.

“A ideia é que isso [encontro] se transforme em uma articulação permanente no estado de São Paulo para lutar por uma reforma da polícia, uma nova política de segurança e pelo fim do extermínio da juventude negra, pela mudança da postura da polícia e, principalmente, para que os crimes sejam investigados pela Polícia Federal porque os dados mostram um crescimento alarmante [das chacinas] e esses crimes têm ficado impunes”, disse Julian Rodrigues, coordenador de formação do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). “Queremos pressionar o Ministério Público e o próprio Judiciário, que não podem ser complacentes com essa política de extermínio”, completou.

Segundo Rodrigues, os movimentos cogitam pedir a federalização das investigações. “Isso exige que o procurador-geral da República acione o Superior Tribunal de Justiça para que as investigações saiam do âmbito do estado de São Paulo e sigam para âmbito federal. Não é algo simples de fazer, é burocrático e precisa ser comprovada negligência do governo estadual, que a gente sabe que existe, mas que é difícil de ser aceita e comprovada pelos órgãos superiores de justiça e pela procuradoria da República”, disse o coordenador do MNDH.

Líder do movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, também defendeu a medida. “Temos que pedir intervenção federal porque estão morrendo brasileiros no estado de São Paulo”, pediu durante a reunião.

“Compreendemos e achamos salutar para o governo de São Paulo que isso seja investigado por todas as polícias, não só pela Corregedoria [Polícia Militar] nem só pela Polícia Civil de São Paulo que possui um grau de competência para isso, mas que pudéssemos federalizar essas investigações porque quanto mais instituições investigando isso, maior é a possibilidade e oportunidade que temos de esclarecer”, ressaltou Rildo Marques, presidente do Condepe.

A preocupação das famílias também é demonstrada pelo Escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh).

Em setembro deste ano, logo após a divulgação de vídeos em que dois suspeitos de roubo foram rendidos, revistados e depois mortos por policiais militares (um deles foi arremessado do telhado em uma casa no bairro do Butantã, na zona oeste da capital paulista), o órgão se manifestou por meio de nota e pediu que o fato seja investigado exaustiva e imparcialmente.

“É essencial que as execuções extrajudiciais sejam investigadas por um órgão independente da Polícia Militar de São Paulo. Só assim se pode evitar que os responsáveis fiquem na impunidade”, disse Amerigo Incalcaterra, representante do Acnudh para a América do Sul.

“Esse tipo de fato recorrente evidenciaria uma cultura institucional de violência e impunidade nas polícias. Por isso, chamo as autoridades a revisar a doutrina e o funcionamento das forças de segurança do país, além de investigar, julgar e sancionar os responsáveis por estas condutas”, acrescentou Incalcaterra, que solicitou ainda que os policiais sejam treinados a agir segundo os protocolos internacionais de respeito aos direitos humanos.

Crítica às investigações

Um parente de uma das oito vítimas da chacina na sede da torcida organizada do Corinthians (Pavilhão 9), ocorrida em abril deste ano, reclamou da atuação da polícia e do Ministério Público na investigação do caso. Até o momento, um policial e um ex-policial estão presos e estão sendo julgados pelas mortes, mas um terceiro suspeito ainda não foi identificado oficialmente.

“Num primeiro momento, eles [as vítimas] não estavam na rua. Eles estavam dentro de uma sede com CNPJ. Ali houve uma chacina deliberada onde a polícia acusou duas pessoas porque as testemunhas disseram que entraram três pessoas lá e atiraram. Dois deles foram identificados e estão presos, mas existe um terceiro que a polícia até agora não pegou porque disse que não existem provas e porque as testemunhas não querem falar. Se não tem testemunha, a polícia não tem dado técnico? Onde está o acompanhamento disso? Cadê o Ministério Público (MP)?”, reclamou o parente que pediu para não ser identificado com medo de retaliação. “Tem justiceiro e o Estado não quer assumir. Por que então não colocam a Polícia Federal para investigar?”, questiona.

A defensora pública Daniela Skromov de Albuquerque, que também acompanha o caso, reclama que, muitas vezes, ao se identificar um dos autores da chacina, os demais suspeitos são esquecidos ou ignorados na investigação. “Quando se identifica um ou dois, a investigação perde força para encontrar os outros [responsáveis]. Isso foi o que aconteceu na chacina da Pavilhão 9. Encontrou-se um PM e um ex-PM e ambos estão presos, e há notícias, sem dúvida, do envolvimento de pelo menos mais uma pessoa e agora fica meio de escanteio”, critica.

Outro problema, acrescentou a defensora, diz respeito à própria legislação penal do país que só condena indivíduos e não o Estado que, em sua visão, deveria ser responsabilizado pelas chacinas praticadas por policiais. “Quem está no processo penal no banco dos réus é o indivíduo, não o Estado. E aí a tendência é sempre analisar o caso concreto quando, na verdade, se tem um problema crônico e seria necessário fazer um enlace, como se fosse uma grande investigação entre todos os casos”, disse.

“Teve uma chacina em Sapopemba, no primeiro semestre de 2014, na Favela da Ilha, e lá colhi relatos de que uma Hyundai HB20 teria sido usada pelos matadores. Coincidentemente ou não, uma HB20 também foi usada na chacina da Pavilhão 9. Poderia se tratar do mesmo ou dos mesmos autores? Só saberíamos isso juntando e unindo as investigações”, exemplificou.

O caso do Pavilhão 9 é acompanhado pelo promotor de Justiça Rogério Leão Zagallo, cuja atuação é criticada por movimentos sociais e pelos parentes das vítimas. Zagallo também ficará responsável pela investigação das mortes de dois suspeitos de roubo no Butantã em que câmeras flagraram policiais forjando as mortes e até arremessando um deles do telhado.

“Ele é um dos responsáveis por atuar na área dos fatos e o caso foi distribuído a ele”, disse Everton Luiz Zanella, promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de São Paulo, em resposta aos questionamentos da Agência Brasil.

Segundo ele, os inquéritos policiais de chacinas são sempre acompanhados por um promotor. “No caso de Osasco, há uma força-tarefa constituída para acompanhar o caso. Vale mencionar que o MP assinou neste ano dois termos de cooperação – um com o Condepe e outro com a prefeitura de São Paulo – para receber informações acerca de mortes que envolvam agentes do Estado”, disse.

Sobre as críticas feitas à atuação do órgão nos casos referentes às chacinas, Zanella respondeu que esse tipo de investigação “é bastante complicado, especialmente pelo medo das testemunhas em dar informações”.

“Entendemos o lado das famílias e estamos sempre à disposição para atendê-las. É conveniente mencionar que o MP tem um termo de cooperação com o Centro de Referência e Apoio a Vítima [Cravi] para atendimento diário às vítimas de violência. O Cravi funciona no Fórum da Barra Funda e diariamente há um promotor de plantão para atender a vítimas e familiares. De qualquer forma, é evidente que toda atuação pode melhorar e o MP está sempre buscando a otimização de sua atuação”, disse.

Já a Secretaria de Segurança Pública, por meio de nota, disse que um policial militar foi preso, na última quinta (24), pela morte de quatro entregadores de pizza no caso da chacina de Carapicuíba,  “como consequência das investigações”. Ainda segundo a secretaria, os crimes em Osasco e Barueri estão com investigações avançadas, que tramitam em segredo de Justiça.

Em entrevista coletiva concedida na semana passada, o secretário de Segurança Pública do estado, Alexandre de Moraes, disse que apresentará em breve uma conclusão sobre as chacinas de Osasco e de Barueri. “A investigação de Osasco e Barueri é absoluta prioridade do governo do estado de São Paulo. Agora, não confundam pressa com prioridade. Não temos pressa. Temos prioridade, porque é um assunto importante e que envolveu diversas vidas. Nós vamos resolver isso”, disse. Até o momento, apenas um policial militar foi preso acusado de participação nas mortes ocorridas em Osasco e Barueri.

“Estamos fazendo uma investigação técnica, baseada em uma metodologia importantíssima, que vai levar importantes resultados ao Ministério Público e ao Poder Judiciário. Não queremos agir com pressa simplesmente para dizer que temos um resultado. É prioridade, não pressa”, acrescentou o secretário.

Procurado pela Agência Brasil, o governo de São Paulo não se pronunciou, até o momento, sobre o pedido de ajuda à Polícia Federal nas investigações. Já a Secretaria de Segurança Pública disse que não iria se pronunciar sobre o pedido feito pelas famílias e por movimentos sociais. O Ministério da Justiça respondeu que esses “crimes são de competência da polícia estadual”.

Edição: Lílian Beraldo