Razões contra o Ciclo Completo da Polícia Militar: Por um modelo de Polícia unificada e desmilitarizada 149

comunicado

Está em plena execução um movimento que busca instituir no Brasil o denominado Ciclo Completo da Polícia Militar.

A proposta é capitaneada especialmente pelos oficiais das Polícias Militares, os quais entendem que a Polícia Militar deve realizar as funções das Polícias Civis, ou seja, presidirem investigações criminais de civis, por crime comum, e ainda realizarem a lavratura de autos de prisão em flagrante e de termos circunstanciados.

Essa pretensão encontra-se em gestação em Propostas de Emenda à Constituição, notadamente nas PECs 423/2014, 431/2014 e 127/2015.
Essas propostas tramitam em conjunto com outras que tratam da desmilitarização das Polícias Militares e da criação de uma polícia única estadual, de natureza civil, a partir da unificação das Polícias Civil e Militar (PEC 430/2009, 432/2009).

As propostas que tratam de polícia estadual unificada e desmilitarizada não são de interesse dos oficiais das Polícias Militares, pois acabariam com sistema que apenas privilegia o oficialato em detrimento das praças e da sociedade.

O relator de todas as propostas é o Deputado Raul Jungmann, do Partido Popular Socialista de Pernambuco (PPS/PE), o qual, mesmo indo contra os ideais de seu partido, já demonstrou o claro intuito de atender exclusivamente as propostas de conceder às Polícias Militares todo o poder de investigação criminal, mesmo de civis, e não admitir as demais PECs.

Assim, a fim de esclarecer e rechaçar os argumentos que vêm sendo implantados na sociedade e junto aos formadores de opinião em geral, passamos a expor alguns argumentos que comprovam o risco e a inconveniência de se dotar a Polícia Militar de poderes investigatórios plenos para presidir inquéritos policiais e para proceder à lavratura de Autos de Prisão em Flagrante.

Em primeiro lugar, é assombroso o número de crimes no Brasil, situação provocada em grande parte por graves falhas na prevenção. A atividade de policiamento preventivo no Brasil ainda encontra-se em patamares provincianos, semelhantes àqueles que se vê em países como Honduras, onde estão os maiores índices de homicídios do mundo.

Isso provoca uma sobrecarga nas Polícias Civis, que ficam inviabilizadas de dar cabo do elevado número de infrações penais provocadas por falha na prevenção.

Diante da falência do sistema de prevenção e de sua incapacidade em dar conta de sua própria tarefa, a Polícia Militar passa agora a avançar sobre as funções de investigação criminal, de incumbência das Polícias Judiciárias.

Ainda que tivéssemos policias ostensivas que cumprissem com seu dever de prevenir e evitar o número assombroso de crimes que assola o país, ainda assim não seria razoável ou constitucionalmente viável impor à sociedade um modelo de investigação militar de civis por várias outras razões.

Autorizar a Polícia Militar a fazer investigações criminais, fora dos casos de crimes militares, representa um retrocesso de décadas em matéria de direitos humanos, que vai de encontro aos princípios da cidadania e da dignidade da pessoa humana, insculpidos no art. 1º da Constituição Federal.

Não por acaso, a ONU já se pronunciou a favor da desmilitarização das Polícias Militares brasileiras, e pesquisa da Secretaria Nacional de Segurança Pública demonstra que mais de 70% (setenta por cento) dos policiais, incluindo militares, são a favor da desmilitarização das Polícias Militares.

Nesse diapasão, vale destacar que entidades representativas de classes das praças são contra o Ciclo Completo da PM e a favor da desmilitarização, pois entendem que são propostas que fortalecem apenas a classe dos oficiais, que em regra não estão nas ruas exercendo as atividades própria de policiamento ostensivo e preventivo.

Por exemplo, vale mencionar a Associação das Praças Policiais Militares da Ativa e Reformados do Estado de São Paulo – APPMARESP, que possui várias manifestações nesse sentido disponíveis no site: http://www.appmaresp.com/news/ciclo-completo-de-policia-a-quem-interessa/
Ainda que fosse possível superar tais incongruências, a investigação de civis por militares implica dizer que cidadãos, em pleno exercício de seus direitos civis e políticos, serão levados para quartéis e batalhões, onde serão autuados e permanecerão detidos.
Vale lembrar que as unidades militares não são locais propensos ao exercício de direitos, haja vista serem aquarteladas e se submeterem a regramentos castrenses, em que se cerceia até o acesso às suas instalações, que dizer então em exercer direitos constitucionalmente assegurados no interior dessas estruturas.

Para elucidar, estima-se que 71% (setenta e um por cento) dos conduzidos por policiais militares até as delegacias de polícia de todo país correspondem a detenções ilegais ou desnecessárias.

Isso demonstra a importância do delegado de polícia no controle de legalidade das prisões realizadas pela Polícia Militar, evitando um considerável número de prisões ilegais e arbitrárias.

Afinal, não é sem razão que desde o Código Processual Penal do Império que toda pessoa presa deveria ser levada perante o juiz de paz ou Chefe de Polícia e seus delegados, pois a garantia do cidadão deve vir antes de mirabolantes “métodos de policiamento completos”.
Aliás, caso o modelo militarizado fosse o mais adequado, a Polícia Federal adotaria esse modelo altamente criticado e de questionável legitimidade. Contudo, a Polícia Federal é civil.

Não se olvida que a Polícia Federal foi dirigida por militares no passado, porém evoluiu consideravelmente, tornando-se um referencial em termos de eficiência e também de respeito à cidadania, sendo importante registar que hoje a lei impõe a direção da instituição por delegados de polícia federal, de natureza civil.

Na medida em que se avança no aperfeiçoamento das estruturas sociais, vem se demonstrando que o regime democrático somente deve se valer de estruturas militares em situações restritas e excepcionais, o que se sobreleva em importância quando se trata de instituição policial.
A militarização da segurança pública, notadamente das investigações criminais, criará uma duplicidade de regime jurídico, em que alguns serão investigados por órgãos civis, enquanto outros serão submetidos a processo de investigação diferenciado, trazendo insegurança jurídica e limitações ao pleno exercício do direito de defesa.

Por isso, não se pode admitir a submissão de um cidadão a uma investigação militar em razão de crime comum, visto que isso limita até mesmo o exercício do direito de se contrapor a eventuais atos ilegais praticados pelo policial militar, que não se sujeitará ao mesmo regime jurídico aplicável aos demais cidadãos e servidores da segurança pública.

Por outro lado, não se olvida que, para a Polícia Militar realizar investigações criminais, ela terá que retirar policiais das ruas para que passem a exercer essa outra atividade.

Para contrapor esta constatação, terão que criar mais cargos de policiais militares, contratar mais pessoas e inchar as já robustas fileiras militares, instituindo um novo modelo de federalismo militarizado.

Não se olvida ainda que terão que criar cartórios e estruturas para realização de investigações criminais, onerando ainda mais os Estados, para o exercício de uma atividade para a qual já existe um órgão específico e qualificado, que historicamente foi esquecido em razão de políticas de segurança pública equivocadas e eleitoreiras.

Ademais, não são apenas essas as razões que desaconselham a institucionalização de um sistema militar de investigação de civis.
Quando se fala de ciclo completo, não se pode perder de vista que a União e os Estados já exercem ciclo completo de policiamento. No caso da União, a Polícia Federal, que é de natureza civil, exercem funções preventivas e repressivas.

Os Estados, por sua vez, por concentrarem o maior número de infrações penais, especializam as funções de prevenção e repressão. Todavia, bom repetir, todas as funções são de titularidade do Estado, cujo chefe maior na hierarquia das instituições policiais é o Governador.
Por essa razão, não procedem as alegações de que se tratam de duas polícias incompletas, visto que se trata de especialização de funções, cujo titular é o mesmo – o Estado, que detém o ciclo completo de policiamento no âmbito de seu território.

Da mesma forma, não se sustenta a alegação de que seria necessário o ciclo completo pela Polícia Militar porque não existem delegacias de polícia em todos os municípios brasileiros.

De fato, não existem delegacias em todos os Municípios, bem como não existem juízes e promotores, o que não autoriza a usurpação das funções constitucionais de outros órgãos pela Polícia Militar.

Dessa forma, o que se nota é o oportunismo diante de uma situação provocada pelo equívoco e pela omissão de muitos governantes que decidiram, como política de segurança pública, investir em grandes efetivos militares nas ruas como forma de gerar uma falsa sensação de segurança para somar votos, a despeito de investir nas polícias investigativas.

Não resta dúvida de que essa política de segurança se mostrou falida, pois foi incapaz de prevenir os crimes, razão pela qual não nos surpreende a intenção da Polícia Militar de avançar sobre a atividade que pode fazer a diferença em matéria de segurança pública – a polícia judiciária.

Aproveita-se da omissão, do descaso e do desrespeito para com a Polícia Civil para tentar retirar-lhe o que restou de ar para viver, com a pretensão de retirar-lhe as funções.

Não resta dúvida de que a proposta de Ciclo Completo da PM não trará benefício algum à sociedade, havendo medidas mais urgentes e importantes, como a proposta de desmilitarização das Polícias Militares, bem como a destinação obrigatória e vinculada de recursos para melhoria de condições das Polícias Judiciárias Civil e Federal, não se admitindo a usurpação de suas funções.

Por fim, a única discussão possível no que tange à reforma dos órgãos de segurança pública – mesmo sabendo que as causas da violência e insegurança são outras – passa pela desmilitarização e unificação em polícias únicas estaduais, de natureza civil, sendo esta a única possibilidade de se falar em ciclo completo.

Aos que resistem à ideia de uma polícia unificada de natureza civil, bom saber que conceder o ciclo completo para a Polícia Militar será pior, pois instituirá uma polícia única estadual militar, pois não há dúvida de que a necessidade de aumentar o efetivo militar para dar conta das novas atribuições representará a aniquilação das Polícias Civis e a instituição de um novo modelo de “estado federado militarizado”, colocando sobre a cabeça de cada Governador uma verdadeira espada de Dâmocles.

A propósito, é intrigante o fato de a palavra mais utilizada por muitos gestores da segurança pública ser “integração”, quando a prática e os movimentos políticos tendem à maximização das divergências e do isolamento entre as instituições, como parece ficar claro por parte dos defensores de uma Polícia Militar com superpoderes.

Afinal, não existe melhor forma de integrar que unir.

Forte nessas razões, não temos dúvida que o caminho da segurança pública passa pela civilização das polícias.

FÓRUM NACIONAL DAS ENTIDADES DE DELEGADOS DE POLÍCIA – FONAED

CICLO COMPLETO PM – Cabo arranca tatuagem com facão durante sessão de tortura, mostra vídeo 25

PM arranca tatuagem com facão durante sessão de tortura, mostra vídeo
Uniforme aparenta ser da PM-CE. Corporação diz não ter elementos para iniciar investigação
R7 Página Inicial

Josmar Jozino, da TV Record, e Alvaro Magalhães, do R7

Um vídeo que circula em grupos de WhatsApp mostra um policial militar, aparentemente pertencente à corporação do Estado do Ceará, utilizando um facão para torturar um rapaz. O PM passa todo o 1m54s do vídeo raspando o lado esquerdo das costas da vítima (a íntegra do vídeo está abaixo).

O rapaz, que chora enquanto sangra, é ainda agredido com a ponta do facão e com a lateral da lâmina. Outra pessoa, que acompanha a sessão, dá dois violentos chutes na região do tronco da vítima. É possível ver que ela usa coturnos semelhantes aos da PM.

Não é possível saber quando e onde a tortura ocorreu. As imagens foram repassadas nesta segunda-feira (5) ao R7 por um delegado da Polícia Civil de São Paulo, que as recebeu por meio de um grupo de policiais do qual participa.

Aparentemente, a tortura ocorre porque o rapaz tem uma tatuagem de palhaço nas costas. No início do vídeo, com a vítima ainda em pé e com a camisa levantada, o policial torturador afirma.

— Chore, não. O palhaço agora está ganhando cor. A gente agora está só dando cor para o seu palhaço.

Tem informações do caso de tortura revelado pelo R7?

A tatuagem começa a desaparecer, sob o vermelho do sangue. O torturador também dá pancadas com o facão nas costas da vítima e insiste.

— Chore, não. Tu não é vida louca?

A vítima responde.

— Não.

Mas o policial não aceita.

— É sim.

Em seguida, a vítima é obrigada a se ajoelhar. A tortura prossegue. Logo depois, o rapaz aparece deitado, ainda sendo torturado. É nesse momento que outra pessoa, aparentemente também um policial, desfere os dois chutes com o lado interno do coturno direito. O policial que segura a faca não para de raspar as costas da vítima. E afirma.

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— Isso aqui é para tu deixar de ser gaiato, viu?

Na parte final do vídeo, o torturador manda a vítima esticar o braço e coloca o joelho esquerdo nas costas dela. É possível ver um relógio no pulso esquerdo do policial e, no dedo anular, o que aparenta ser uma aliança. Quando ele passa a usar a mão esquerda para praticar a tortura, é possível ver, em seu braço esquerdo, a divisa de soldado e um brasão.

As cores da divisa, em preto e dourado, o formato do brasão, composto aparentemente de um retângulo sobre um semicírculo, além dos tons do uniforme, camisa clara e calça escura, são semelhantes aos utilizados pela Polícia Militar do Estado do Ceará.

Questionado a respeito do vídeo na noite de segunda-feira (5), o tenente-coronel Andrade Mendonça, responsável pelo setor de Comunicação Social da Polícia Militar do Ceará, afirmou ter conhecimento das imagens. Apesar do uniforme semelhante, ele disse que não há elementos suficientes para indicar que o caso tenha ocorrido no Estado.

— O uniforme pode ser de corporações de outros Estados. É um vídeo anônimo que chegou para nós. Analisamos as imagens, mas não tivemos elementos suficientes para abrir um procedimento apuratório.

O coronel frisou, porém, que, caso haja novas informações sobre as imagens, a Polícia Militar cearense pode iniciar uma investigação.

A imagem da divisa e do brasão no braço do policial, porém, não encerram o vídeo. Antes de a sessão de tortura acabar, há um último ato de sadismo. O policial pergunta à vítima, cujas costas sangram em carne viva:

— Está doendo? Está doendo?

Atualização:

Na manhã desta terça-feira (6), a Polícia Militar do Estado do Ceará informou que abriu procedimento para apurar o possível envolvimento de integrantes da corporação na sessão de tortura.

As autoridades cearenses informaram que denúncias podem ser feitas por meio de dois telefones: pelo Disque-Denúncia da Ciops (Coordenadoria Integradada de Operações de Segurança), cujo número é 181 e vale apenas para o Estado; ou pelo telefone da Controladoria-Geral de Disciplina dos Órgaos de Seguranca Pública e Sistema Penitenciário do Estado do Ceará, cujo número é (85) 3101-5042 e vale para todo o País.

O R7 também abriu um canal para receber informações sobre o crime. Caso você tenha alguma informação, pode enviar por aqui.

MP vê ‘subutilização escandalosa’ em seccional e apura omissão do estado 10

Promotora apura se ex-diretor do Deinter-2 praticou improbidade em acordo.
Delegacia aberta em Campinas há 20 meses tem lixo e custa R$ 61 mil/mês.

Fernando PacíficoDo G1 Campinas e Região

Área do imóvel não é usada pela 2ª Delegacia Seccional de Campinas, SP (Foto: Reprodução / Ministério Público)
Área do imóvel não é usada pela 2ª Delegacia Seccional de Campinas (Foto: Reprodução / Ministério Público)

O prédio alugado pelo governo paulista para abrigar a 2ª Delegacia Seccional de Campinas (SP) tem “escandalosa subutilização”, segundo o Ministério Público. A conclusão é da promotora Cristiane Hillal, que irá apurar se houve omissão do estado em serviços de segurança na cidade, e se o ex-diretor do Departamento de Polícia Judiciária da região (Deinter-2), Licurgo Nunes Costa, responsável por assinar o contrato, eventualmente cometeu improbidade administrativa. Ela propõe, ainda, questionamentos ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) sobre o problema.

A promotora de Justiça visitou a unidade em 24 de setembro e constatou que parte do imóvel está abandonada e com acúmulo de lixo e entulho, incluindo uma propaganda eleitoral, 20 meses após ser inaugurada. Sem previsão para as três delegacias especializadas previstas no planejamento divulgado pela Polícia Civil, incluindo uma para defesa da mulher (DDM), em três anos o acordo custará R$ 2,1 milhões aos cofres públicos – vence em setembro do próximo ano.

De acordo com Cristiane, o espaço alugado não atendeu à finalidade para a qual foi destinado.

MP localizou propaganda eleitoral em prédio da 2ª seccional de Campinas, SP (Foto: Reprodução / Ministério Público)Área da seccional tem lixo e uma propaganda
eleitoral  (Foto: Reprodução / Ministério Público)

“Foi aferido, em visita, que no prédio funcionam três serviços: central de flagrantes e ocorrências, pátio de recolha de veículos e motocicletas apreendidas e a unidade administrativa”, relata a promotora que atua na área do Patrimônio Público.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) não comentou sobre nenhuma das considerações feitas pela promotora, incluindo a investigação sobre possível improbidade atrelada ao ex-diretor do Deinter-2. Em nota, indicou apenas que houve redução de indicadores criminais na cidade, incluindo homicídios dolosos, quando há intenção, e roubos (confira, abaixo, a íntegra).

Falta de sigilo
O G1 teve acesso ao documento em que o MP descreve os problemas atrelados à delegacia no Jardim Londres, incluindo as fotografias. Ela foi criada para atender aos moradores dos distritos de Campo Grande e Ouro Verde, que somam quase 40% da população na cidade, e as vítimas em Indaiatuba (SP). Todo material foi anexado ao inquérito civil aberto em março de 2013 para apurar a falta de estrutura da única DDM da cidade, contudo, o procedimento foi reformulado para apuração de eventual improbidade praticada pelo ex-diretor, além de omissão do estado.

Cristiane inicia o documento mencionando que a fachada do imóvel é “bonita e conservada”, mas na sequência critica a disposição dos balcões para registro das ocorrências. “Os delegados e funcionários possuem instalações simples, porém de tamanho adequado às necessidades, sem, todavia, garantir eventual sigilo das informações/declarações/depoimentos colhidos”, relata.

Passados dois anos do aluguel do prédio visitado [2ª seccional de Campinas], constatou-se na visita que seu espaço está subutilizado e não atendeu à finalidade pública para a qual foi destinado”
Cristiane Hillal, promotora de Justiça

Lixo e caça-níqueis
Aos fundos da delegacia, descreve, há um corredor com motos encostadas em um toldo. A passagem, por sinal, liga dois pátios descobertos – um deles usado para guardar os veículos apreendidos; enquanto o outro serve de estacionamento para os servidores.

“O corredor também dá acesso a três celas para custódia de presos em flagrante. Elas também servem para custodiar adolescentes apreendidos em situação flagrancial […] e não possuíam colchão ou cadeira, mas apenas um buraco, no chão, de aparência suja, para utilização como banheiro”, relatou a promotora.

Na parte que fica atrás do toldo, escreveu Cristiane, permanescem “destroços” do que deve ter sido shopping popular, área que está abandonada, com lixo, sem iluminação e com alguns caça-níqueis apreendidos.

O que está previsto no contrato?
Segundo Cristiane, o contrato assinado pelo dono do imóvel e Deinter-2 não menciona sobre custos com adaptações – necessárias para viabilizar as unidades especializadas, incluindo as novas DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e Dise (Investigações sobre Entorpecentes).

“O locador se obrigou a fazer obras referentes, apenas, à estrutura integral do prédio ou àquelas que se destinem a repor suas condições de habitabilidade, em apenas, poços de aeração e iluminação, esquadrias externas, instalação de equipamentos de segurança e de incêndio.

Em nenhum momento são mencionadas obras de adaptação do imóvel, tampouco quem arcaria com os seus custos”, explicou, no texto, a promotora do Patrimônio Público.

Um documento assinado por Cristiane, em 28 de setembro, pede justificativas à Costa sobre a locação do prédio que teria de ser reformado para uso, com evidência de que o poder público não poderia fazer investimentos nele.

“A referida autoridade deverá informar se recebeu ordens superiores para fazer o pedido de locação deste imóvel com a rapidez assistida e, em caso positivo, de quem emanou essa ordem”, informa o documento. Segundo a promotora, o acordo entre estado e proprietário levou quatro meses, e o ex-diretor terá 30 dias, quando notificado, para se manifestar.

Troca de comando e reforço no efetivo
Costa deixou o Deinter-2 em abril de 2014 e foi substituído pelo atual diretor, Kleber Altale. A troca ocorreu na semana posterior às denúncias feita por funcionários da 2ª seccional, ao G1, sobre a falta de materiais e sobrecarga de trabalho na delegacia recém-inaugurada. Em entrevistas ao G1, Altale condicionava a abertura de novas especializadas a reforços no efetivo policial e garantia que pelo menos um setor especializado para atendimento às mulheres seria aberto.

“A abertura de novas especializadas depende de aumento do quadro de policiais. Todavia, as ocorrências relativas às drogas, à violência contra a mulher e casos de maior gravidade ou repercussão, ocorridas na área da nova seccional, continuam sendo investigadas pela Dise, DDM e DIG”, informou em agosto de 2014. Já sobre o atendimento às mulheres, ele relatou em dezembro que o assunto era prioridade do governo e não estava condicionado a um novo prédio.

Materiais foram registrados em área interna da seccional, em Campinas, pelo Ministério Público (Foto: Reprodução / Ministério Público)Materiais foram registrados em área interna da 2ª
seccional (Foto: Reprodução / Ministério Público)

Uma DDM com certeza é possível a curto prazo tentarmos naquela estrutura, pelo menos adequar o local para dar o atendimento ao público. Não [aguardar novo prédio]. Com certeza vai para lá antes disso, nem que seja um setor para atendimento à mulher”, falou. A asessoria da SSP-SP não comentou sobre o déficit de policiais e se há previsão para as novas delegacias.

Em março deste ano, o secretário da Segurança no estado, Alexandre de Moraes, afirmou que o estado aguarda a cessão de um terreno da Prefeitura para incluir, no orçamento 2016 do governo, o projeto de construção do prédio da 2ª seccional. À época, o Executivo confirmou que há um acordo e avalia, junto ao Deinter, áreas para a construção.

Governo ‘responde’
A assessoria do Ministério Público informou que a Procuradoria Geral de Justiça (PGJ) ainda não recebeu portaria assinada por Cristiane, em 28 de setembro, onde ela propõe, ainda, que sejam enviados questionamentos ao governador sobre “a situação que se descortinou em Campinas e que configura, em tese, prejuízo ao erário e atentado ao princípio da eficiência administrativa”.

Plantão da Segunda Delegacia Seccional de Campinas, no Jardim Londres (Foto: Fernando Pacífico / G1 Campinas)Plantão da Segunda Delegacia Seccional de
Campinas (Foto: Fernando Pacífico / G1 Campinas)

A assessoria da SSP-SP não respondeu aos questionamentos atrelados à 2ª Seccional de Campinas, incluindo a hipótese de renovação do contrato ou medidas para tentar resolver problemas citados pelo MP. Além disso, também não comentou sobre a investigação de improbidade e possível omissão. Em vez disso, defendeu que houve redução de indicadores criminais na cidade;

“A Secretaria da Segurança Pública informa que os principais indicadores criminais na região e na cidade de Campinas estão em queda nos oito primeiros meses de 2015, em comparação com o mesmo período do ano passado. Na região, houve redução de 16,8% nos homicídios dolosos, de 4% nos roubos em geral, de 24,9% nos roubos de veículos, de 14,5% nos furtos de veículos e de 4,6% nos furtos em geral. Cabe salientar que o número de veículos roubados e furtados é o menor na série histórica, iniciada em 2001.

No município, houve queda de 5,5% nos homicídios dolosos, de 7% nos roubos, de 32% nos roubos de veículos, de 9,43% nos furtos de veículo e de 4% nos furtos em geral. As prisões aumentaram 10,9% na região de Campinas e chegou ao número recorde de 9.742 nos primeiros oito meses do ano. Além disso, os flagrantes de tráfico de drogas cresceram 7,09% na região. O município teve um aumento de 0,6% nas prisões e 3% nos flagrantes de tráfico de drogas, na comparação de janeiro a agosto deste ano com o mesmo período de 2014.”

O G1 não conseguiu localizar o ex-diretor do Deinter-2 para comentar o caso até a publicação. A assessoria do governador informou que o posicionamento seria emitido somente pela SSP-SP.

Carros apreendidos são guardados em área que seria usada para estacionamento na 2ª Seccional de Campinas, SP (Foto: Reprodução / Ministério Público)Carros apreendidos são guardados em área da 2ª Seccional (Foto: Reprodução / Ministério Público)

São Vicente – Prefeitura corrupta não paga aluguel do 3º DP 6

Prefeitura dá calote e policiais podem ser ‘despejados’ de DP no litoral de SP

Segundo ele, administração pública não paga o aluguel há dez meses.
Prefeitura diz que não foi notificada e não falou sobre a falta de pagamento.

Mariane RossiDo G1 Santos

3º Distrito Policial de São Vicente, no Jardim Rio Branco (Foto: Claudinei Caldas/Arquivo Pessoal)3º Distrito Policial de São Vicente, no Jardim Rio Branco (Foto: Claudinei Caldas/Arquivo Pessoal)

O proprietário do imóvel que abriga o 3º Distrito Policial de São Vicente, no litoral de São Paulo, entrou com uma ação de despejo contra a Prefeitura. Segundo o dono da casa, a administração pública não paga o aluguel do local há quase um ano.

O operador portuário Claudinei Siqueira Caldas conta que o imóvel, que fica na Av. Ulisses Guimarães, no Jardim Rio Branco, é da família dele há mais de 20 anos. A Prefeitura de São Vicente paga R$ 4.200 de aluguel por mês para que o 3º DP fique instalado no local. Mas, há 10 meses, o proprietário não recebe o dinheiro.

“Sempre tive problema. Às vezes atrasava dois ou três meses, mas nunca foi tanto tempo. Mas, agora, na gestão do prefeito atual, está pior. Estou sem receber há quase um ano. Já liguei várias vezes lá, eles falam que vão pagar, mas não pagam. São Vicente está um caos. Entrei com uma ordem de despejo para que eles saíam do imóvel”, falou.

Protocolo do processo de despejo por falta de pagamento (Foto: Richardson de Souza/Arquivo Pessoal)Protocolo do processo de despejo
(Foto: Richardson de Souza/Arquivo Pessoal)

Além disso, ele diz que não autorizou que parte do imóvel fosse utilizado por uma agência bancária. Atualmente, o banco também está operando e obtendo lucro no local sem nenhum pagamento pelo uso.

Richardson de Souza, advogado de Caldas, diz que o proprietário notificou extrajudicialmente a prefeitura em 22 de abril deste ano, informando que não desejavam mais dar prosseguimento à locação. Depois, tentou diversos acordos, mas nada deu certo.

“Eles estão atrasados desde janeiro desse ano. Dei entrada com uma ação de despejo contra a Prefeitura no Fórum, no dia 20 de setembro. O juiz despachou em 24 de setembro. Está para sair o mandado de citação, que é uma espécie de intimação”, falou.

Segundo o advogado, a Prefeitura de São Vicente tem 15 dias para pagar tudo o que deve para o dono do imóvel. Se isso não acontecer, o caso será julgado e a administração pública pode apresentar uma defesa. Se o juiz não aceitar os argumentos da prefeitura, será decretada a desocupação do imóvel e o distrito policial terá que sair do local.  “Imagina o 3º DP sair do Rio Branco. Vai causar um transtorno para a população”, disse o advogado.

O G1 entrou em contato com a Prefeitura de São Vicente que, por meio da Secretaria de Assuntos Jurídicos, informou que até o momento não foi notificada. Em relação a falta de pagamento do aluguel e ao possível fechamento do 3º DP, o G1 aguardou uma resposta durante dois dias e, até a publicação desta reportagem, a Prefeitura de São Vicente não se posicionou sobre o assunto.