Polícia Civil instaura inquérito contra PMs que intimidaram professores e alunos de Escola Estadual de Sorocaba 56

ATENTADO A DIREITOS HUMANOS

Inquérito apura conduta da PM após trabalho escolar sobre violência

OAB denunciou possível abuso de autoridade por parte de policiais.
Cartaz exposto em escola de Sorocaba questionava violência policial.

Jomar BelliniDo G1 Sorocaba e Jundiaí

Trabalho causou polêmica ao questionar trabalho da PM (Foto: Reprodução/ Facebook)Trabalho causou polêmica ao questionar trabalho
da PM (Foto: Reprodução/ Facebook)

A Polícia Civil abriu nesta semana um inquérito para apurar um suposto abuso de autoridade de policiais militares em uma polêmica envolvendo estudantes e um professor da Escola Estadual Professor Aggêo Pereira do Amaral, emSorocaba (SP).

A polêmica começou depois que a foto de um cartaz exposto na escola foi publicada nas redes sociais. O banner fazia parte de um trabalho escolar de filosofia que classificava a PM como um “grande problema na atualidade”. Ao saber sobre o trabalho, a PM emitiu uma nota de repúdio em que criticou a atitude do professor, Valdir Volpato, e da escola. Estudantes afirmam que a presença de policiais passou a ser constante do lado de fora da escola, como forma de intimidação.

De acordo com o delegado Alexandre Cassola, responsável pelas investigações, o inquérito foi instaurado após pedido da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Sorocaba. “Vamos apurar se houve injúria qualificada contra o professor, no sentido de ser um servidor público e a injúria possivelmente ser realizada no exercício de função”, explica.

O G1 procurou a Polícia Militar para falar sobre a abertura do inquérito, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.

Denúncia
Para o advogado da comissão da OAB, Hugo Batalha, a injúria foi registrada na nota de repúdio emitida pela PM e que foi replicada em redes sociais com críticas nominais ao professor Valdir Volpato, responsável pelo projeto. O texto da PM classificou a postura do docente como “infeliz” ao cometer um “erro lastimável”. “A nota oficial ofende expressamente o professor e não pode ser considerada nenhuma questão de interpretação”, afirma o advogado.

O representante da OAB também denunciou o relato feito por estudantes e professores sobre uma presença constante de policiais militares na escola sem motivo aparente após a divulgação do trabalho. “Percebemos que a gravidade das ações da PM dentro da escola na tentativa de censurar o conteúdo da grade curricular. Isso teve um nítido caráter intimidatório porque não é atribuição da PM fazer patrulhamento de conteúdo escolar.”

Ainda segundo Batalha, um documento semelhante ao entregue na Delegacia Seccional de Sorocaba também foi enviado para a corregedoria da Polícia Militar.

De acordo com Cassola, três representantes da escola já foram ouvidos nesta semana. Entre eles está o professor responsável pelo trabalho. “Ele sinalizou que se sentiu censurado pelos policiais no momento em que passaram a querer determinar como deveria ser o trabalho pedagógico e injuriado quando o nome dele foi divulgado no Facebook como ‘infeliz’”, explica o delegado.

O delegado deve oficiar o comando da PM para inicialmente saber quem foram os policiais que estiveram presentes na escola. As investigações vão se estender por 30 dias, prazo que pode ser prorrogado. Como se trata de um crime de menor potencial ofensivo, possíveis indiciados poderão responder criminalmente em liberdade e, dependendo da interpretação da PM, no âmbito administrativo militar.

Repúdio
A PM foi questionada na manhã de quarta-feira (30) sobre a abertura do inquérito por parte da Delegacia Seccional de Sorocaba, mas não respondeu à solicitação do G1 até a publicação desta reportagem. A polícia também não comentou a possível abertura de um processo administrativo na corregedoria para apurar as denúncias da OAB.

No dia 17 de setembro, a corporação emitiu uma nota de repúdio que foi publicada na internet e foi replicada nas redes sociais. “Não queremos acreditar que, em pleno século XXI, profissionais da área de ensino posicionem-se de maneira discriminatória, propagando e incutindo o discurso de ódio em desfavor de profissionais da segurança, estimulando seus alunos a agirem sem embasamento e direcionando-os de acordo com ideologias anacrônicas, que em nada contribuem para a melhoria da sociedade”, dizia a nota.

Estudantes realizaram protesto a favor de projeto sobre violência policial (Foto: Jomar Bellini/G1)Estudantes realizaram protesto a favor de projeto
sobre violência policial (Foto: Jomar Bellini/G1)

Classificando a charge como “infeliz”, a Polícia Militar afirmou que “sempre foi e será grande defensora dos direitos humanos e dos deveres morais, éticos e legais da sociedade”. A nota da PM ainda criticou a forma como o trabalho foi feito, com base em “matérias jornalísticas e material de criação confeccionados por pessoas parciais” e “longe de ser uma metodologia aceitável”. A corporação encerrou a nota afirmando que repudiava “a postura do infeliz professor, caso efetivamente tenha ocorrido esse erro lastimável”.

Cartaz polêmico
O trabalho, entitulado “Violência Policial”, questiona a ação da Polícia Militar no Estado de São Paulo e foi produzido por alunos do ensino médio. O cartaz explica as etapas do projeto e diz, na conclusão, que os policiais “acabam sendo considerados um grande problema na atualidade usando a força para obter melhores resultados”.

De acordo com o projeto, o objetivo seria levantar “uma reflexão do quanto a polícia viola os deveres morais, éticos e legais com ações que contrariam as leis”. A reportagem do G1 entrou em contato com o professor Valdir Volpato na época em que surgiu a polêmcia, mas ele afirmou que não se pronunciaria sobre o caso.

O trabalho especifica as discussões realizadas em torno do tema, levantando a “questão da violência policial contra a população” alegando que a PM “usa a vingança para obter resultados”. Ainda segundo o cartaz, o trabalho foi produzido utilizando como base reportagens publicadas em jornais e em pesquisas na internet.

A peça de divulgação do trabalho traz também uma imagem do chargista Lattuf publicada em 2013, quando a Câmara Municipal de São Paulo votou um projeto de lei concedendo a homenagem “Salva de Prata” às Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). A imagem mostra um policial com uma cabeça de caveira segurando um caixa com um homem morto e os dizeres “pelos relevantes serviços prestados”.

A publicação do banner nas redes sociais gerou críticas aos alunos que participaram do projeto e ao professor. Após a nota de repúdio da PM, estudantes chegaram a fazer um protesto em defesa da escola.

Regina Viana, diretora da escola, defendeu o projeto durante protesto (Foto: Jomar Bellini/G1)Regina Viana, diretora da escola, defendeu o
projeto durante protesto (Foto: Jomar Bellini/G1)

O Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp) e a OAB também realizaram um ato em repúdio à suposta intervenção da PM na escola estadual. O evento aconteceu no dia 28, no Núcleo de Educação, Tecnologia e Cultura, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e contou com a presença do professor Valdir Volpato, responsável pelo trabalho, e do chargista Carlos Latuff, que chegou inclusive a publicar uma nova charge após a polêmica.

Outros cartazes
O trabalho foi realizado após um ciclo de palestras das disciplinas de História, Filosofia e Sociologia onde os estudantes trabalham, desde o começo do semestre, o livro “Vigiar e Punir”, do filósofo francês Michel Foucault.

Em entrevista ao G1 em 17 de setembro, dia em que os estudantes fizeram o protesto, a diretora da escola defendeu o projeto e afirmou que a ideia era promover uma reflexão sobre a sociedade.“Não faltou orientação. Está dentro da obra do Foucault e não foi tirado isoladamente. O fato de a foto do cartaz ser pinçado isoladamente, fora do contexto, é que deu este problema. Teria que ler desde o primeiro porque são mais de 20 banners. Pegaram justamente sobre a violência policial, mas não quer dizer que a polícia é violenta”, disse.

Viana comentou também sobre o conteúdo do cartaz. “O cartaz foi produzido com base em pesquisas na internet e não busca denegrir a imagem da polícia.” Em outros cartazes relacionados ao ciclo de palestras e que estão expostos no saguão de entrada da escola são abordados temas como o sistema carcerário em geral e a facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios de São Paulo.

A diretora disse que, diferentemente do que os estudantes afirmam, a escola não recebeu nenhum tipo de represália da Polícia Militar, apenas críticas de publicações em redes sociais.

Charge faz crítica à possível intervenção da PM em escola de Sorocaba (Foto: Divulgação / Lattuf)Charge faz crítica à possível intervenção da PM em escola de Sorocaba (Foto: Divulgação / Lattuf)

Falta de policiais civis pode colocar Operação Verão em xeque, prevê presidente do Sinpolsan 41

Márcio Pino diz que já alertou vários conselhos de segurança da Região, mas Estado não atendeu reivindicações

por Carlos Ratton – Diário do Litoral 

A Secretaria da Segurança Pública nega, mas segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado de São Paulo na Região de Santos (Sinpolsan), Márcio Pino, o efetivo da Polícia Civil da Região Metropolitana da Baixada Santista caiu, em média, 50% nos últimos cinco anos. Diante do que prevê como um grande problema principalmente durante o período da temporada de Verão, Márcio Pino, alerta para um verdadeiro caos nas delegacias, “caso o Governo do Estado não mude essa realidade”.

Segundo Pino, não adianta o Governo enviar reforço somente para Polícia Militar, pois trabalhos ostensivos e preventivos sem a investigação, não fazem efeito. “A capacidade da Polícia de esclarecer crimes só acontece em função do esforço pessoal de alguns policiais que estão perdendo o convívio familiar e utilizando recursos próprios para investigar”, garante o sindicalista.

“É a velha história do cobertor curto. O aumento da criminalidade está diretamente relacionado à impunidade que, por sua vez, se dá pela falta de estrutura e do efetivo da Polícia Civil. A falta de funcionários já chegou a Santos, considerada a principal cidade da região. Os escrivães, como diz o jargão da polícia, estão tocando o serviço como podem”, afirma Pino, alertando que, em Praia Grande, as pessoas evitam registrar ocorrências porque a média de espera é de duas horas.

Márcio Pino é presidente do sindicato alerta para sérios problemas por deficit de policiais (Foto: Luiz Torres/DL)

Márcio Pino é presidente do sindicato alerta para sérios problemas por deficit de policiais (Foto: Luiz Torres/DL)

O representante afirma que chegam a 300 procedimentos por mês fora da temporada. No entanto, o policial revela o exemplo do que ocorre no 1º Distrito Policial de Santos que, em 2009, tinha 48 policiais. “Hoje tem 24. Eram oito delegados e só tem três. Eram 14 escrivães e tem cinco. Eram 20 investigadores e hoje tem 10. E não funciona aos sábados e domingos”, afirma o presidente.

Segundo Pino, outro exemplo é o 4º Distrito, que de cinco escrivães passou a ter três, sendo que um está próximo da aposentadoria e o outro “sou eu, que vou me afastar para exercer as atividades sindicais. Portanto, ficará restrito a dois. Tinha 23 investigadores e agora deve também ter somente 10. Isso ocorre em quase todos os distritos da região, mas principalmente em Praia Grande, Guarujá e São Vicente”, revela o sindicalista.

Márcio Pino conta que a precariedade operacional de Santos se igualou às demais cidades do entorno. “Santos está muito ruim. O policial civil terá que optar: atender o público ou dar andamento às investigações para desvendar o crime. A população, que paga impostos, não tem culpa da falta de planejamento do Estado. Tem o direito de exigir o trabalho bem feito”, afirma Pino.

O sindicalista explica que um concurso foi feito em 2013, mas os alunos ainda não foram chamados. O Estado deveria ter 32 mil policiais civis. No entanto, só tem 18 mil. “Faltam 14 mil. O Governo está há dois anos alertando que vai efetivar mais três mil, mas não o faz. O pior é que contingente não supre a cidade de São Paulo. Três mil policiais é mais ou menos 20% do que deveríamos ter em todo o Estado”, afirma.

Márcio Pino diz que já alertou vários conselhos de Segurança (Consegs) da Região, mas o Estado não responde às reivindicações. “Na temporada, vem cerca de 500 policiais militares para a região e não chega a 10% (50) o número de civis. As delegacias não estão e nem estarão estruturadas para a demanda. Voltando ao exemplo de Praia Grande, que chega a 1,5 milhão de pessoas, não tem jeito: as pessoas não vão prestar queixa e, consequentemente, os índices não corresponderão à realidade”, revelou.

Secretaria nega redução brusca

Ao contrário das afirmações do presidente do Sinpolsan, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que o efetivo da Polícia Civil é de 28,5 mil policiais e nega que o efetivo da corporação na região da Baixada tenha sido reduzido em 50% nos últimos cinco anos.

Nos últimos dois anos, segundo a SSP, foram enviados para a região 191 novos policiais. Foram 41 policiais civis (dois agentes de telecomunicações, 14 agentes policiais, quatro papiloscopistas, cinco auxiliares de papiloscopista, 11 investigadores e cinco escrivães), em 2014, e 16, ou seja, quatro delegados e 12 agentes de telecomunicações, em 2013.

A Secretaria afirma ainda que está em andamento concursos com 7.537 vagas para ingresso nas carreiras policiais, que serão distribuídos para todo o Estado após o processo de formação policial. Os concursos são para Polícia Militar (quatro mil soldados e 240 alunos-oficiais); Polícia Civil (129 delegados, 788 escrivães e 1.384 investigadores); Polícia Técnico-científica (89 atendentes de necrotério, 447 peritos, 140 médicos legistas, 120 fotógrafos técnico-periciais, 55 desenhistas técnico-periciais e 145 auxiliares de necropsia).

Além disso, está em formação, segundo a SSP, 110 escrivães, 189 agentes policiais, um investigador, um papiloscopista para a Polícia Civil; e um perito e um médico legista para a Polícia Técnico Científica.

Sindicato prevê horas de lentidão em atendimento (Foto: Luiz Torres/DL)

Sindicato prevê horas de lentidão em atendimento (Foto: Luiz Torres/DL)

Alckmin assina adicional

Contrariando as tentativas da SSP em negar a redução no efetivo da polícia civil, o governador Geraldo Alckmin, assinou, na última segunda-feira, projeto de lei para a criação da Diária Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Civil (Dejec). A medida autoriza os policiais civis trabalharem voluntariamente nas folgas, com direito a uma remuneração adicional.

A explicação para tal medida é a de que a escala remunerada de trabalho aumentará a renda dos policiais civis, a exemplo do que já acontece com os militares, e reforçará o efetivo nas ruas, nas delegacias, no trabalho de investigação e atendimento à população.

Cada policial poderá trabalhar até 8 horas diárias (fora da jornada normal), por até 10 dias no mês, ou seja, máximo de 80 horas, para que o serviço extraordinário não prejudique o descanso do policial civil.

O valor pago aos delegados está estimado em R$ 204, 00 por dia, contemplando oito horas de trabalho. As demais carreiras receberão R$ 170,00 por dia. O valor é calculado com base na Unidade Fiscal do Estado de São Paulo (Ufesp).

Sobre a medida, o presidente Márcio Pino se mostrou indignado. Segundo afirma, a diferença oferecida aos policiais do que é pago a uma diarista na capital paulista é R$ 2,82/dia. Para os delegados, a diferença é R$ 36,82 por dia. “Nada contra o trabalho das diaristas, que são dignos e importantes, mas os riscos dos policiais são, sem dúvidas, bem superiores”, disparou.

INOPERÂNCIA DA PM E DA JUSTIÇA MILITAR – Sociedade civil e parentes de vítimas querem federalização das chacinas praticadas por PMs 13

DIREITOS HUMANOS

Sociedade civil e parentes de vítimas pedem que PF investigue chacinas

Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil

A demora na investigação e, muitas vezes, a falta de punição dos responsáveis pelas chacinas preocupa os parentes das vítimas e os movimentos sociais e de direitos humanos. Para eles, uma possível solução seria convocar a Polícia Federal para auxiliar nas investigações desse tipo de crime no estado de São Paulo.

Na semana passada, movimentos sociais se reuniram na sede do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), no centro da capital paulista, para discutir uma forma de pressionar o governo de São Paulo na responsabilização das chacinas ocorridas no estado. O pedido de ajuda à PF para resolução desses crimes foi uma das medidas propostas.

“A ideia é que isso [encontro] se transforme em uma articulação permanente no estado de São Paulo para lutar por uma reforma da polícia, uma nova política de segurança e pelo fim do extermínio da juventude negra, pela mudança da postura da polícia e, principalmente, para que os crimes sejam investigados pela Polícia Federal porque os dados mostram um crescimento alarmante [das chacinas] e esses crimes têm ficado impunes”, disse Julian Rodrigues, coordenador de formação do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). “Queremos pressionar o Ministério Público e o próprio Judiciário, que não podem ser complacentes com essa política de extermínio”, completou.

Segundo Rodrigues, os movimentos cogitam pedir a federalização das investigações. “Isso exige que o procurador-geral da República acione o Superior Tribunal de Justiça para que as investigações saiam do âmbito do estado de São Paulo e sigam para âmbito federal. Não é algo simples de fazer, é burocrático e precisa ser comprovada negligência do governo estadual, que a gente sabe que existe, mas que é difícil de ser aceita e comprovada pelos órgãos superiores de justiça e pela procuradoria da República”, disse o coordenador do MNDH.

Líder do movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, também defendeu a medida. “Temos que pedir intervenção federal porque estão morrendo brasileiros no estado de São Paulo”, pediu durante a reunião.

“Compreendemos e achamos salutar para o governo de São Paulo que isso seja investigado por todas as polícias, não só pela Corregedoria [Polícia Militar] nem só pela Polícia Civil de São Paulo que possui um grau de competência para isso, mas que pudéssemos federalizar essas investigações porque quanto mais instituições investigando isso, maior é a possibilidade e oportunidade que temos de esclarecer”, ressaltou Rildo Marques, presidente do Condepe.

A preocupação das famílias também é demonstrada pelo Escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh).

Em setembro deste ano, logo após a divulgação de vídeos em que dois suspeitos de roubo foram rendidos, revistados e depois mortos por policiais militares (um deles foi arremessado do telhado em uma casa no bairro do Butantã, na zona oeste da capital paulista), o órgão se manifestou por meio de nota e pediu que o fato seja investigado exaustiva e imparcialmente.

“É essencial que as execuções extrajudiciais sejam investigadas por um órgão independente da Polícia Militar de São Paulo. Só assim se pode evitar que os responsáveis fiquem na impunidade”, disse Amerigo Incalcaterra, representante do Acnudh para a América do Sul.

“Esse tipo de fato recorrente evidenciaria uma cultura institucional de violência e impunidade nas polícias. Por isso, chamo as autoridades a revisar a doutrina e o funcionamento das forças de segurança do país, além de investigar, julgar e sancionar os responsáveis por estas condutas”, acrescentou Incalcaterra, que solicitou ainda que os policiais sejam treinados a agir segundo os protocolos internacionais de respeito aos direitos humanos.

Crítica às investigações

Um parente de uma das oito vítimas da chacina na sede da torcida organizada do Corinthians (Pavilhão 9), ocorrida em abril deste ano, reclamou da atuação da polícia e do Ministério Público na investigação do caso. Até o momento, um policial e um ex-policial estão presos e estão sendo julgados pelas mortes, mas um terceiro suspeito ainda não foi identificado oficialmente.

“Num primeiro momento, eles [as vítimas] não estavam na rua. Eles estavam dentro de uma sede com CNPJ. Ali houve uma chacina deliberada onde a polícia acusou duas pessoas porque as testemunhas disseram que entraram três pessoas lá e atiraram. Dois deles foram identificados e estão presos, mas existe um terceiro que a polícia até agora não pegou porque disse que não existem provas e porque as testemunhas não querem falar. Se não tem testemunha, a polícia não tem dado técnico? Onde está o acompanhamento disso? Cadê o Ministério Público (MP)?”, reclamou o parente que pediu para não ser identificado com medo de retaliação. “Tem justiceiro e o Estado não quer assumir. Por que então não colocam a Polícia Federal para investigar?”, questiona.

A defensora pública Daniela Skromov de Albuquerque, que também acompanha o caso, reclama que, muitas vezes, ao se identificar um dos autores da chacina, os demais suspeitos são esquecidos ou ignorados na investigação. “Quando se identifica um ou dois, a investigação perde força para encontrar os outros [responsáveis]. Isso foi o que aconteceu na chacina da Pavilhão 9. Encontrou-se um PM e um ex-PM e ambos estão presos, e há notícias, sem dúvida, do envolvimento de pelo menos mais uma pessoa e agora fica meio de escanteio”, critica.

Outro problema, acrescentou a defensora, diz respeito à própria legislação penal do país que só condena indivíduos e não o Estado que, em sua visão, deveria ser responsabilizado pelas chacinas praticadas por policiais. “Quem está no processo penal no banco dos réus é o indivíduo, não o Estado. E aí a tendência é sempre analisar o caso concreto quando, na verdade, se tem um problema crônico e seria necessário fazer um enlace, como se fosse uma grande investigação entre todos os casos”, disse.

“Teve uma chacina em Sapopemba, no primeiro semestre de 2014, na Favela da Ilha, e lá colhi relatos de que uma Hyundai HB20 teria sido usada pelos matadores. Coincidentemente ou não, uma HB20 também foi usada na chacina da Pavilhão 9. Poderia se tratar do mesmo ou dos mesmos autores? Só saberíamos isso juntando e unindo as investigações”, exemplificou.

O caso do Pavilhão 9 é acompanhado pelo promotor de Justiça Rogério Leão Zagallo, cuja atuação é criticada por movimentos sociais e pelos parentes das vítimas. Zagallo também ficará responsável pela investigação das mortes de dois suspeitos de roubo no Butantã em que câmeras flagraram policiais forjando as mortes e até arremessando um deles do telhado.

“Ele é um dos responsáveis por atuar na área dos fatos e o caso foi distribuído a ele”, disse Everton Luiz Zanella, promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de São Paulo, em resposta aos questionamentos da Agência Brasil.

Segundo ele, os inquéritos policiais de chacinas são sempre acompanhados por um promotor. “No caso de Osasco, há uma força-tarefa constituída para acompanhar o caso. Vale mencionar que o MP assinou neste ano dois termos de cooperação – um com o Condepe e outro com a prefeitura de São Paulo – para receber informações acerca de mortes que envolvam agentes do Estado”, disse.

Sobre as críticas feitas à atuação do órgão nos casos referentes às chacinas, Zanella respondeu que esse tipo de investigação “é bastante complicado, especialmente pelo medo das testemunhas em dar informações”.

“Entendemos o lado das famílias e estamos sempre à disposição para atendê-las. É conveniente mencionar que o MP tem um termo de cooperação com o Centro de Referência e Apoio a Vítima [Cravi] para atendimento diário às vítimas de violência. O Cravi funciona no Fórum da Barra Funda e diariamente há um promotor de plantão para atender a vítimas e familiares. De qualquer forma, é evidente que toda atuação pode melhorar e o MP está sempre buscando a otimização de sua atuação”, disse.

Já a Secretaria de Segurança Pública, por meio de nota, disse que um policial militar foi preso, na última quinta (24), pela morte de quatro entregadores de pizza no caso da chacina de Carapicuíba,  “como consequência das investigações”. Ainda segundo a secretaria, os crimes em Osasco e Barueri estão com investigações avançadas, que tramitam em segredo de Justiça.

Em entrevista coletiva concedida na semana passada, o secretário de Segurança Pública do estado, Alexandre de Moraes, disse que apresentará em breve uma conclusão sobre as chacinas de Osasco e de Barueri. “A investigação de Osasco e Barueri é absoluta prioridade do governo do estado de São Paulo. Agora, não confundam pressa com prioridade. Não temos pressa. Temos prioridade, porque é um assunto importante e que envolveu diversas vidas. Nós vamos resolver isso”, disse. Até o momento, apenas um policial militar foi preso acusado de participação nas mortes ocorridas em Osasco e Barueri.

“Estamos fazendo uma investigação técnica, baseada em uma metodologia importantíssima, que vai levar importantes resultados ao Ministério Público e ao Poder Judiciário. Não queremos agir com pressa simplesmente para dizer que temos um resultado. É prioridade, não pressa”, acrescentou o secretário.

Procurado pela Agência Brasil, o governo de São Paulo não se pronunciou, até o momento, sobre o pedido de ajuda à Polícia Federal nas investigações. Já a Secretaria de Segurança Pública disse que não iria se pronunciar sobre o pedido feito pelas famílias e por movimentos sociais. O Ministério da Justiça respondeu que esses “crimes são de competência da polícia estadual”.

Edição: Lílian Beraldo