O CICLO COMPLETO DE POLÍCIA, ALIÁS, DA POLÍCIA MILITAR 66

“Ciclo Completo de Polícia”: dizem que é a execução das funções judiciário-investigativa e ostensivo-preventiva pela mesma instituição policial.

No fundo, no fundo, é a Polícia Militar querendo ampliar as manias de prender, levar para o batalhão, dar umas botinadas no pobre, chamar a imprensa e, só depois, “apresentar o FLAGRANTE  para o BEL. DE PLANTÃO fazer.”

Relevante informar: para a PM,  e similares,  todos confessam.

Para o BEL , na presença dos PMs,  GMs ou ASPs, todos baixam a cabeça e dão aquele sorriso típico.

Os suspeitos quando interrogados formal e reservadamente, de regra, esclarecem os motivos da “confissão”.

Aliás,   coisa que BEL DE PLANTÃO não pode fazer sob pena de escreverem “o Delegado se trancou com o preso, depois estranhamente determinou apenas a lavratura de BO”.  

Outra curiosidade do ciclo completo: O PRESO SEMPRE CONVIDA OS POLICIAIS PARA REVISTAREM O SEU DOMICÍLIO.

Depois da inicial amabilidade  , em autorizar o ingresso ao domicílio,  se tornam violentos. 

Daí a necessidade das algemas e emprego moderado de força física.

Eis todo o ciclo completo de investigação dos órgãos ostensivos, ou seja, prendo, arrebento e escrevo só aquilo que me aproveita.

O CASO DOS IRMÃOS NAVES: AS TÉCNICAS E RESULTADOS DO CICLO COMPLETO DA POLÍCIA MILITAR 20

O Caso dos Irmãos Naves 

narrado por Rogério Schietti Machado Cruz
Promotor de Justiça do MPDFT

Considerado o maior erro judiciário do Brasil. Aconteceu na cidade mineira de Araguari, em 1937. Os irmãos Naves (Sebastião, de 32 anos de idade, e Joaquim, contando 25), eram simplórios trabalhadores que compravam e vendiam cereais e outros bens de consumo.  

“Estamos a 12 de janeiro. Dia terrível para os irmãos Naves. O depoimento de Malta tinha sido tomado a 7. Nos cinco dias subseqüentes, o tenente era ferro em brasa. Diligências aqui, lá, acolá. Dia a dia, levava os presos pro mato. Longe. Onde ninguém visse. Nos ermos cerradões das chapadas de criar emas. Batia. Despia. Amarrava às árvores. Cabeça pra baixo, pés para cima. Braços abertos. Pernas abertas. Untados de mel. De melaço. Insetos. Formigas. Maribondos. Mosquitos. Abelhas. O sol tinia de quente. Árvore rala, sem sombra. Esperava. De noite cadeia. Amarrados. Amordaçados. Água? Só nos corpos nus. Frio. Dolorido. Pra danar. Pra doer. Pra dar mais sede. Pra desesperar. Noutro dia: vai, vem, retornam. O mesmo. Noutra noite: assim. Eles, nada. Duros. Nunca viu gente assim. Nunca teve de ser tão cruel. Tão mau. Tão violento. Nunca teve tanto trabalho para inventar suplícios. E, nada. Dia. Noite. Noites. Dias. Assim, assim. Um dia: 12, vão lá, à beira do rio Araguari, descem a serra. Eles vão juntos. Depois, separados. Escondidos, um do outro. Amarrados nas árvores. Como feras. Como touros no sangradoiro. Pensam que é o fim. Não agüentam mais. Inchados. Doloridos. Dormentes. Esperam. Morre? Não morre? O tenente estava satisfeito. Tinha um plano. Perdera a noite. Mas valia, valeu. Conta pros dois, antes de separá-los, de amarrá-los longe, invisível um ao outro. Vocês vão morrer agora. Vamos matá-los. Não tem mesmo remédio. Não contam. Não confessam. Morrem. Morrerão. Separa-os. É a vez do Bastião. Tiros perto dos ouvidos, por trás. Gritos. Encenação. Ele resiste. Largam-no. Voltam para o Joaquim: Matamos seu irmão. Agora é a sua vez. Vai morrer. Joaquim era mais fraco. Aniquilado. Descora mais ainda. Não tem mais sangue. Verde. Espera. Tem piedade! Não me mate, seu tenente. Não tem jeito. Você não conta: morre. Bastião já se foi. Você vai também. Irá com ele. Só se contar. Confessa, bandido! Confessa, bandido! Confessa! Não quer mesmo? Então, vamos acabar com essa droga. Podem atirar. Atenção: Preparar! Fogo! Tiros. Joaquim sente o sangue correr perna abaixo. Não sabe onde o ferimento. Pensa que vai morrer. O delegado: Andem com isso, acabem com ele. Por piedade, seu tenente! Não me mate! Eu faço o que o senhor quiser! Pode escrever. Assino tudo, não me mate! Não agüento mais. Joaquim perde os sentidos. É levado secretamente aonde possa ser curado do ferimento. Mantém-se ausente. Feito o curativo. Não pode contar a ninguém. Caiu; machucou-se. Só. Tem de repetir tudo na Delegacia. Direitinho. Cara boa. Se não fizer, não terá mesmo outro jeito. Você é que sabe, Joaquim. Só se quiser morrer. Joaquim não mais vê Sebastião. Acha que está morto. Apavorado, procura controle. Quando está em ordem, levam-no à delegacia. Vai depor. Segunda. Terceira vez. Desta vez é confissão. Perfeita. Minuciosa. Bem ensaiada. Decorada como discurso de menino em grupo escolar…” (p. 58).

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OBSERVAÇÕES PESSOAIS:

No livro “O CASO DOS IRMÃOS NAVES, UM ERRO JUDICIÁRIO” ( Ed. Del Rey, 3ª ed., Belo Horizonte, 1993), o advogado dos irmãos Naves, João Alamy Filho, dá a sua interpretação das condições que tornaram possível esse tremendo erro: estávamos sob nova ditadura. Não havia garantias legais. Subvertia-se a ordem democrática, extinto o Legislativo, o Poder Executivo sobrepunha-se à lei e ao Judiciário. Saía-se de uma breve revolução. Forçava-se punição criminal comum como substrato da punição criminal política. A pessoa humana, o cidadão, era relegados a um plano inferior, secundário. Interessava-se apenas pelo Estado. A subversão da ordem influenciava a subversão do Direito, e a falta de soberania do Tribunal Popular. Naqueles tempos o Tribunal de Justiça podia reformar o veredito do Júri, o que não acontece mais hoje. ”

OS TEMPOS SÃO OUTROS.

MUITAS COISAS MUDARAM É VERDADE. SÓ NÃO MUDOU A NATURAL INCLINAÇÃO ESTATAL PARA INJUSTIÇAR  PRETOS  e  POBRES.

MELHOR AINDA SE FOR  “PRETO-POBRE”.

 

Joaquim Naves era sócio de Benedito Caetano. Este comprara, com auxílio material de seu pai, grande quantidade de arroz, trazendo-o para Araguari, onde, preocupado com a crescente queda dos preços, vende o carregamento por expressiva quantia. 

Na madrugada de 29 de novembro de 1937, Benedito desaparece de Araguari, levando consigo o dinheiro da venda do arroz. Os irmãos Naves, constatando o desaparecimento, e sabedores de que Benedito portava grande importância em dinheiro, comunicam o fato à Polícia, que imediatamente inicia as investigações. 

O caso é adrede atribuído ao Delegado de Polícia Francisco Vieira dos Santos, personagem sinistro e marcado para ser o principal causador do mais vergonhoso e conhecido erro judiciário da história brasileira. Militar determinado e austero (Tenente), o Delegado inicia as investigações e não demora a formular a sua convicção de que os irmãos Naves seriam os responsáveis pela morte de Benedito. 

A partir de então inicia-se uma trágica, prolongada e repugnante trajetória na vida de Sebastião e Joaquim Naves, e de seus familiares. 

Submetidos a torturas as mais cruéis possíveis, alojados de modo abjeto e sórdido na cela da Delegacia, privados de alimentação e visitas, os irmãos Naves resistiram até o esgotamento de suas forças físicas e morais. Primeiro Joaquim, depois Sebastião. 

A perversidade do Tenente Francisco não se limitou aos indiciados. Também as esposas e até mesmo a genitora deles foram covardemente torturadas, inclusive com ameaças de estupro, caso não concordassem em acusar os maridos e filhos. 

A defesa dos irmãos Naves foi exercida com coragem e perseverança pelo advogado João Alamy Filho, que jamais desistiu de provar a inocência de seus clientes, ingressando com habeas corpus, recursos e as mais variadas petições, na busca de demonstrar às autoridades responsáveis pelo processo o terrível equívoco que estava sendo cometido. 

Iniciado o processo, ainda sob as constantes e ignominiosas ameaças do Tenente Francisco, os irmãos Naves são pronunciados para serem levados ao Tribunal do Júri, sob a acusação de serem autores do latrocínio de Benedito Caetano, ao passo que a mãe dos irmãos, D. Ana Rosa Naves, é impronunciada. 

Na sessão de julgamento, a verdade começa a surgir, com a retratação das confissões extorquidas na fase policial, e, principalmente, com o depoimento de outros presos que testemunharam as seguidas e infindáveis sevícias sofridas pelos acusados na Delegacia de Polícia. 

Dos sete jurados, seis votam pela absolvição dos irmãos Naves. 

A promotoria, inconformada, recorre ao Tribunal de Justiça, que anula o julgamento, por considerar nula a quesitação. 

Realizado novo julgamento, confirma-se o placar anterior: 6 X 1. Tudo indica que os irmãos Naves seriam finalmente libertados da triste desdita iniciada meses antes. Ledo engano: o Tribunal de Justiça resolve alterar o veredito (o que era então possível, mercê da ausência de soberania do Júri no regime ditatorial da Constituição de 1937), condenando os irmãos Naves a cumprirem 25 anos e 6 meses de reclusão (depois reduzidos, na primeira revisão criminal, para 16 anos). 

Após cumprirem 8 anos e 3 meses de pena, os irmãos Sebastião e Joaquim, ante comportamento prisional exemplar, obtêm livramento condicional, em agosto de 1946. 

Joaquim Naves falece, como indigente, após longa e penosa doença, em 28 de agosto de 1948, em um asilo de Araguari. Antes dele, em maio do mesmo ano, morria em Belo Horizonte seu maior algoz, o tenente Francisco Vieira dos Santos. 

De 1948 em diante, o sobrevivente Sebastião Naves inicia a busca pela prova de sua inocência. Era preciso encontrar o rastro de Benedito, o que vem a ocorrer, por sorte do destino, em julho de 1952, quando Benedito, após longo exílio em terras longínquas, retorna à casa dos pais em Nova Ponte, sendo reconhecido por um conhecido, primo de Sebastião Naves. 

Avisado, Sebastião apressa-se em dirigir-se a Nova Ponte, acompanhado de policiais, vindo a encontrar o “morto” Benedito, que, assustado, jura não ter tido qualquer notícia do que ocorrera após a madrugada em que desapareceu de Araguari. Coincidentemente, dias após sua efêmera prisão e o citado juramento, toda a família de Benedito morre tragicamente, na queda do avião que os transportava a Araguari, onde prestariam esclarecimentos sobre o desaparecimento daquele. 

O caso passou a ser nacionalmente conhecido. A imprensa o divulgou com o merecido destaque. A mesma população que, influenciada pela autoridade do delegado, inicialmente aceitava como certa a culpa dos irmãos Naves, revoltava-se com o ocorrido, tentando, inclusive, linchar o desaparecido Benedito. 

Em nova revisão criminal, os irmãos Naves foram finalmente inocentados, em 1953. 

Como etapa final e ainda custosa e demorada, iniciou-se processo de indenização civil pelo erro judiciário. 

Em 1956 foi prolatada a sentença, que mereceu recursos pelo Estado, até que, em 1960, vinte e dois anos após o início dos suplícios, o Supremo Tribunal Federal conferiu a Sebastião Naves e aos herdeiros de Joaquim Naves o direito à indenização. 

No livro “O CASO DOS IRMÃOS NAVES, UM ERRO JUDICIÁRIO” ( Ed. Del Rey, 3ª ed., Belo Horizonte, 1993), o advogado dos irmãos Naves, João Alamy Filho, dá a sua interpretação das condições que tornaram possível esse tremendo erro: estávamos sob nova ditadura. Não havia garantias legais. Subvertia-se a ordem democrática, extinto o Legislativo, o Poder Executivo sobrepunha-se à lei e ao Judiciário. Saía-se de uma breve revolução. Forçava-se punição criminal comum como substrato da punição criminal política. A pessoa humana, o cidadão, era relegados a um plano inferior, secundário. Interessava-se apenas pelo Estado. A subversão da ordem influenciava a subversão do Direito, e a falta de soberania do Tribunal Popular. Naqueles tempos o Tribunal de Justiça podia reformar o veredito do Júri, o que não acontece mais hoje. 

Segue, para ilustrar o sofrimento por que passaram os irmãos Naves, um trecho do livro de onde se extraíram as informações do texto supra, quando são descritas as torturas físicas e morais impingidas a Sebastião e Joaquim, pelo Delegado de Araguari, tenente Francisco Vieira dos Santos:

BOMBA!BOMBA!BOMBA! CADÊ? SÓ A PM VIU…MAS O CORINTIANO – NO CURSO DO CICLO COMPLETO – CONFESSOU. 9

Imagem desmente versão da PM

Promotor que segue violência em estádios não vê bomba partir de estacionamento e contraria tenente

Tumulto na saída da torcida do Corinthians depois do clássico com o São Paulo no Morumbi, no dia 15, deixou ao menos 49 pessoas feridas

EDUARDO OHATA
DA REPORTAGEM LOCAL

O sistema de monitoramento por câmeras de vídeo do estádio do Morumbi não registrou imagens de nenhuma bomba sendo lançada de um estacionamento próximo do local da saída de torcedores após o clássico entre São Paulo e Corinthians, disputado há nove dias, segundo o promotor criminal Paulo Castilho, para quem o São Paulo encaminhou teipes.
“”Se alguma bomba tivesse sido atirada do estacionamento, pelo ângulo das imagens, isso teria sido captado. Não há imagem de artefato indo de cima para baixo”, argumenta Castilho. “”Dá para ver a hora em que a primeira bomba explode, há um grande clarão. Mas não posso afirmar se a bomba foi atirada por torcedores ou policiais”, acrescentou o promotor.
Castilho aponta que, até o momento da explosão, a torcida do Corinthians saía tranquilamente do estádio, sem nenhum tipo de confusão visível nas imagens. “”Somente após estourar a bomba, com o clarão, é que começa o corre-corre.”
Foram disponibilizadas imagens captadas das câmeras instaladas nas arquibancadas e também no corredor de saída do estádio, que passou por adaptação recente e ganhou muro que reduziu a sua largura.
Apesar de Arnaldo Hossepian Jr. ter assumido a investigação, Castilho já havia requisitado os teipes por seu trabalho juntos às organizadas e o combate à violência nos estádios.
A reportagem apurou que a análise de Castilho é corroborada por funcionários do São Paulo que tiveram acesso às fitas. Um deles apontou que, embora não tenha assistido ao material na íntegra, em momento algum vê bombas sendo atiradas do estacionamento. Porém detectou o momento em que a polícia disparou bombas de efeito moral -o que teria provocado o corre-corre que feriu ao menos 49 pessoas.
O São Paulo encaminhou cópias das imagens também para as polícias civil e militar. A assessoria de imprensa da PM informou que somente se pronunciará amanhã. A reportagem apurou que oficiais do 34º DP, onde o inquérito foi instaurado, receberam cópias dos teipes. Contudo, como seus pares na PM, não se pronunciaram.
Segundo a polícia, o torcedor Robinson Damião, 25, confessou na última sexta-feira ter atirado a bomba inicial, que provocou toda a confusão.
Ele foi detido por policiais que averiguavam denúncia de violação de domicílio e afirmou, diz a PM, que foi quem fabricou -a partir de bolas de sinuca- e atirou a primeira bomba detonada no Morumbi.
Seu termo de declaração foi anexado ao inquérito. Embora tenha sido liberado, Damião deve ser convocado para depor.
A PM tem, aliás, versões diferentes do que aconteceu no Morumbi. No boletim de ocorrência, consta que “”bombas caseiras foram lançadas pelos torcedores corintianos em diversas direções, além de bolas de gude e também cadeiras arrancadas das arquibancadas”.
A versão do tenente-coronel Hervando Velozo, que chefiava o policiamento no jogo e desqualificou o B.O., dá conta de que uma bomba foi lançada do estacionamento reservado a diretores do São Paulo e proprietários de cadeiras cativas em direção ao corredor por onde saíam os fãs corintianos.

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Confessou.  

Pronto e ponto final!

O ciclo completo é assim mesmo.  

A palavra de um tenente e a confissão de um suspeito qualquer.

O  CASO IRMÃOS NAVES  –   tido como o maior erro judiciário do Brasil – foi construido por delegado – tenente da PM de Minas Gerais. 

Sob tortura os suspeitos confessaram –  ao delegado oficial PM  –  o homicídio do MORTO QUE NÃO MORREU.